quinta-feira, 30 de agosto de 2007
Desígnio da nossa Adoção Divina
[João Calvino, O Livro de Salmos, São Paulo, Ed. Parakletos, 2002,Vol 3, p.586]
Algumas coisas são deixadas para o juízo final
quarta-feira, 29 de agosto de 2007
Comentário Sobre Romanos 8:29-30
Porque os que dantes conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos; e aos que predestinou, a estes também chamou; e aos que chamou, a estes também justificou; e aos que justificou, a estes também glorificou.
O verbo proorizw [proorizo], o qual é traduzido por predestinar, aponta para as circunstâncias desta passagem em pauta. O apóstolo quer dizer simplesmente que Deus determinara que todos quantos adotasse levariam a imagem de Cristo. Não diz simplesmente que deveriam ser conformados a Cristo, e, sim, à imagem de Cristo, com o fim de ensinar-nos que em Cristo há um vivo e nítido exemplo que é posto diante dos filhos de Deus para que imitem. A súmula da passagem consiste em que a graciosa adoção, na qual nossa salvação consiste, é inseparável deste outro decreto, a saber: que ele nos designou para que levemos a cruz. Ninguém pode ser herdeiro do reino celestial sem que antes seja conformado ao Filho Unigênito de Deus.
Embora a condição dos santos difira na aparência (assim como há diferença entre os membros do corpo humano), todavia há certa conexão entre cada indivíduo e sua cabeça. Como, pois, o primogênito leva o nome da família, assim Cristo é colocado numa posição de preeminência, não só para que sua honra seja enaltecida entre os crentes, mas também para que ele inclua todos os crentes em seu seio sob o selo comum de fraternidade.
30. E aos que predestinou, a esses também chamou. Paulo agora emprega um clímax a fim de confirmar, por meio de uma demonstração mais clara, quão verdadeiramente a nossa conformidade com a humildade de Cristo efetua a nossa salvação. Daqui ele nos ensina que a nossa participação na cruz é tão conectada com a nossa vocação, justificação e, finalmente, nossa glória, que não podem ser desmembradas.
A fim de que os leitores possam melhor entender a intenção do apóstolo, é bom que se lembrem de minha afirmação anterior, ou seja: que o verbo predestinar, aqui, não se refere à eleição, mas ao propósito ou decreto divino pelo qual ordenou que seu povo levasse a cruz. Ao ensinar-nos que agora são chamados, o apóstolo tencionava que Deus não oculta mais o que determinara fazer com eles, mas que o revelou a fim de que pudessem levar com equanimidade e paciência a condição a eles imposta. A vocação, aqui, é distinguida da eleição secreta, como sendo inferior a ela. Pode-se alegar que ninguém tem conhecimento algum da condição que Deus designou a cada indivíduo. Portanto, para evitar isto, o apóstolo diz que Deus, através de seu chamado, testifica publicamente de seu propósito oculto. Este testemunho, contudo, não consiste só na pregação externa, mas tem também o poder do Espírito conectado a ela, pois Paulo está tratando com os eleitos, a quem Deus não só compele por meio de sua Palavra falada, mas também convence interiormente.
A justificação, aqui, pode muito bem ser entendida como que incluindo a continuidade do favor divino desde o tempo da vocação do crente até sua morte. Mas, visto que Paulo usa esta palavra ao longo da Epístola, no sentido da imerecida imputação da justiça, não há necessidade de nos apartarmos deste significado. O propósito de Paulo é mostrar que a compensação que nos é oferecida é por demais preciosa para permitir-nos enfrentar com ânimo as aflições. O que é mais desejável que ser reconciliado com Deus, de modo que nossas misérias não mais são sinais da maldição divina, nem mais nos conduz à destruição?
O apóstolo acrescenta que aqueles que se vêem oprimidos pela cruz serão glorificados pela cruz serão glorificados, de modo que seus sofrimentos e opróbrios não lhes produzem dano algum. Embora a glorificação só foi exibida em nossa Cabeça, todavia, visto que agora percebemos nele a herança da vida eterna, sua glória nos traz uma segurança tal de nossa própria glória, que a nossa esperança pode muito bem ser comparada a uma possessão já presente.
Deve-se acrescentar ainda que o apóstolo empregou um hebraísmo e usou o tempo passado dos verbos, em vez do presente. O que ele pretende é, quase certo, um ato contínuo; por exemplo: “Aqueles a quem Deus agora educa sob a cruz, segundo seu conselho, ele chama e justifica, ato contínuo, para a esperança da salvação; de modo que, em sua humilhação, não perdem nada de sua glória. Embora seus sofrimentos atuais a deformem aos olhos do mundo, todavia, diante de Deus e dos anjos, ela está sempre a brilhar em perene perfeição”. O que Paulo, pois, pretende mostrar, por este clímax, é que as aflições dos crentes, as quais são a causa de sua atual humilhação, têm como único propósito fazê-los entender que possuem a glória do reino celestial e que vão alcançar a glória da ressurreição de Cristo, com quem já se acham crucificados.
quinta-feira, 23 de agosto de 2007
Excelente regra e Escola
A graça de Deus como libertação e o combate
A graça de Deus algumas vezes é chamada libertação ou livramento, sendo que por ela somos libertados da escravidão do pecado; mas também é chamada, ora reparação do nosso ser, pela qual, sendo posto de lado o velho homem, somos restaurados à imagem de Deus; ora regeneração, pela qual somos feitos novas criaturas; ora ressurreição, pela qual Deus, fazendo com que morramos, ressucita-nos por seu poder. Todavia, aqui é preciso observar que o livramento nunca é completo, visto que uma parte de nós permanece sob o jugo do pecado; que a restauração jamais se realiza completamente, portanto muita coisa dos vestígios do homem terreno permanece; e que a ressurreição nunca é completa, pois alguma coisa retemos do velho homem. Isso porque, enquanto estamos encerrados nesta prisão que o nosso corpo é, trazemos sempre conosco as relíquias, ou seja, os restos da nossa carne, os quais na mesma proporção diminuem a nossa liberdade. Porque a alma fiel, depois da sua regeneração, divide-se em duas partes, entre as quais há uma diferença perpétua. Pois, quando é regida e governada pelo Espírito de Deus, ela deseja e ama a imortalidade, o que a incita e a induz à justiça, à pureza e à santidade, e assim não medita noutra coisa senão na bem-aventurança do reino celestial, e aspira inteiramente à companhia de Deus; e no que permanece ainda em seu natural, estando impelida pela lama terrena e envolta em más ambições, não enxerga o que de fato é desejável e onde está a verdadeira felicidade. Detida pelo pecado, mantém-se longe de Deus e da sua justiça.
Daí surge um combate que põe em ação o homem fiel durante sua vida toda, sendo que pelo Espírito é elevado às alturas, e pela carne é levado a desviar-se e é derribado. Segundo o Espírito, ele se dirige cheio de ardente desejo para a imortalidade; segundo a carne, desvia-se por um caminho que leva à morte. Segundo o Espírito, ele pensa em viver retamente; segundo a carne, é atraído pela iniqüidade. Segundo o Espírito, ele é conduzido para Deus; segundo a carne, é levado a recuar. Segundo o Espírito, ele condena o mundo; segundo a carne, cobiça os prazeres mundanos.Não se trata aqui de uma especulação frívola, da qual não teríamos nenhuma experiência na vida, mas é uma doutrina caracterizada pala prática, que verdadeiramente experimentamos em nós, se somos filhos de Deus.
Autor: João CalvinoFonte: As Institutas - Edição Especial, Vol. 01, p. 132,133. Editora Cultura Cristã. Compre este maravilhoso livro em http://www.cep.org.br/
Capítulo IX - inteiro da Institutas Vol 1, pg 93-96, edição clássica
1. Apelo Fanático ao Espírito Santo em detrimento da Escritura
Ademais, aquele que, repudiada a Escritura, imaginam não sei que via de acesso a Deus, devem ser considerados não só possuídos pelo erro, mas também exacerbados pela loucura. Ora, surgiam em tempos recentes certos desvairados que, arrogando-se, com extremada presunção, o magistério do Espírito, fazem pouco caso de toda leitura da Bíblia e se riem da simplicidade daqueles que ainda seguem, como eles próprios a chamam, a letra morta e que mata.
Eu, porém, gostaria de saber deles que Espírito é esse de cuja inspiração se transportam a alturas tão sublimadas que ouse desprezar como pueril e rasteiro o ensino da Escritura? Ora, se respondem que é o Espírito de Cristo, tal certeza é absurdamente ridícula, se na realidade concedem, segundo penso, que os apóstolos de Cristo, e os demais fiéis na Igreja primitiva, foram iluminados não por outro Espírito. O fato é que nenhum deles daí aprendeu o menosprezo pela Palavra de Deus; ao contrário, cada um foi antes imbuído de maior reverência, como seus escritos o atestam mui luminosamente. E, na verdade, assim fora predito pela boca de Isaías. Pois o povo antigo não toma o ensino extremo como se fosse uma cartilha de rudimentos, onde diz: “Meu Espírito que está em ti, e as palavras que te pus na boca, de tua boca não se apartarão, nem da boca de tua descendência, para sempre” [Is 59.21], senão que ensina, antes, haver de ter a nova Igreja, sob o reino de cristo, esta verdadeira e plena felicidade: que seria regida pela voz de Deus, não menos que pelo Espírito. Do quê concluímos que, em nefando sacrilégio, estes dois elementos que o Profeta uniu por vínculo inviolável são separados por esses biltres.
A isto acresce que Paulo, arrebatado que foi até ao terceiro céu [2Co 12.2], entretanto não deixou de aprofundar-se no ensino da lei e dos profetas, assim como também a Timóteo, mestre de singular proeminência, a que se devotasse a sua leitura [1 Tm 4.13]. E digno de ser lembrado é esse elogio com que adorna a Escritura: “é útil para ensinar, admoestar, redargüir, a fim de que os servos de Deus se tornem perfeitos” [2Tm 3.16]. De quão diabólica loucura é imaginar como se fosse transitório ou temporário o uso da Escritura que conduz os filhos de Deus até a meta final!
Em seguida, desejaria que também me respondessem isto: porventura beberam de outro Espírito além daquele que o Senhor prometia a seus discípulos? Ainda que se achem possuídos de extrema insânia, contudo não os julgo arrebatados de tão frenético desvario que ousam gabar-se disso. Mas, ao prometê-lo, de que natureza declarava haver de ser esse Espírito? Na verdade, um Espírito que não falaria por si próprio; ao contrario, que lhes sugeriria à mente, e nela instilaria o que ele próprio havia transmitido por meio da Palavra [Jo 16.13].
Logo, não é função do Espírito que nos foi prometido configurar novas e inauditas revelações ou forjar um novo gênero de doutrina, mediante a qual sejamos afastados do ensino do evangelho já recebido; ao contrário, sua função é selar-nos na mente aquela mesma doutrina que é recomendada no evangelho.
2. A Bíblia é o Arbítrio do Espírito
Do quê facilmente entendemos isto: se ansiamos por receber algum uso e fruto da parte do Espírito de Deus, imperioso nos é aplicar-nos diligentemente a ler tanto quanto a ouvir a Escritura. Assim é que Pedro louva [2Pe 1.19] o zelo daqueles que atentos ao ensino profético, ensino que, todavia, após resplandecida a luz do evangelho, poderia parecer ter sido cancelado. Muito pelo contrário, se algum espírito, preterida a sabedoria da palavra de Deus, nos impingir outra doutrina, com justa razão deve o mesmo ser sujeito da fatuidade e mentira [Gl 1.6-9].
E então? Uma vez que Satanás se transfigura em anjo de luz [2Co 11.14], que autoridade terá o Espírito entre nós, a não ser que seja discernido por meio de sinal de absoluta certeza? E de forma intensamente clara, ele nos tem sido apontado pela voz do Senhor, não fora que, por sua própria vontade, estes infelizes porfiassem por extraviar-se para sai própria ruína, enquanto buscam o espírito por si próprios e não por ele mesmo.
Alegam, com efeito, que é afrontoso que o Espírito de Deus, a quem todas as coisas devem estar sujeitas, seja subordinado à Escritura. Como se, na verdade, isto fosse ignominioso ao Espírito Santo: ser ele por toda parte igual e conforme a si mesmo; permanecer consistente consigo em todas as coisas; em nada variar! De fato, se fosse necessário julgar em conformidade com qualquer norma humana, angélica, ou estranha, então deveria considerar-se que o Espírito estaria reduzido a subordinação; aliás, se agradar mais, até mesmo a servidão. Quando, porém, se compara ele é impingido com ofensa?
Com efeito, confesso que, desta forma, o Espírito é submetido a um exame, contudo um exame por meio do qual ele quis que sua majestade fosse estabelecida entre nós. Ele deve ser plenamente manifesta assim que nos adentra o coração.
Entretanto, para que o espírito de Satanás não se insinue sob o nome do Espírito, ele quer ser por nós reconhecido em sua imagem que imprimiu nas Escrituras. Ele é o autor das Escrituras: não pode padecer variação e inconsistência para consigo mesmo. Portanto, como ali uma vez se manifestou, assim tem ele de permanecer para sempre. Isto não lhe é derrogatório, a não ser, talvez, quando julgamos dever ele abdicar e degenerar sua dignidade.
3. A Bíblia e o Espírito Santo não se dissociam
Quando, porém, nos movem acusação, de que nos apegamos demasiadamente à letra que mata, nisto incorrem na pena de desprezarem a escritura. Ora, salta à vista que Paulo está ali [2Co 3.6] a contender com os falsos apóstolos, os quais, na realidade, insistindo na lei à parte de Cristo, alienavam o povo da graça da nova aliança, na qual o Senhor promete que haverá de grava sua lei nas entranhas dos fiéis lhas imprimir no coração [Jr 31.33]. Portanto, morta é a letra, e a lei do Senhor mata a seus leitores, quando não só se divorcia da graça de Cristo, mas ainda, não tangido o coração, apenas soa aos ouvidos. Se ela, porém, mediante o Espírito, é eficazmente impressa nos corações, se a Cristo manifesta, ela é a palavra da vida [Fp 2.16], a converter as almas, a dar sabedoria aos símplices etc. [Sl 19.7].
Ademais, ainda nessa mesma passagem [2Co 3.8], o Apóstolo chama sua pregação de ministério do Espírito, sem dúvida significando que o Espírito Santo de tal modo se junge a sua verdade que expressou nas Escrituras, que manifesta e patenteia seu poder, onde então, afinal, se rende à Palavra a devida reverência e dignidade. Tampouco isto contradiz o que foi dito pouco atrás: que a própria Palavra não nos é absolutamente certa, a não ser que seja confirmada pelo testemunho do Espírito. Pois o Senhor ligou entre si, como que por mútuo nexo, a certeza de sua Palavra e a certeza de seu espírito, de sorte que a sólida religião da palavra se implante em nossa alma quando brilha o Espírito, que nos faz aí contemplar a face de Deus, assim como, reciprocamente, abraçamos ao Espírito, sem nenhum temor de engano, quando o reconhecemos em sua imagem, isto é, na Palavra.
De fato assim sucede.
Deus não deu a conhecer aos homens a Palavra com vistas a apresentar momentânea para que logo em seguida a abolisse com a vinda de seu Espírito; pelo contrário, enviou o mesmo Espírito, pelo poder de quem havia ministrada a palavra, para que realizasse sua obra mediante a confirmação eficaz dessa mesma Palavra. Dessa forma, Cristo abriu o entendimento aos dois discípulos de Emaús [Lc 24.27,45], não para que, postas de parte as Escrituras, se fizessem sábios por si mesmos, mas para que entendessem essas Escrituras. De modo semelhante Paulo, enquanto exorta aos tessalonicenses a que não extingam o Espírito, não os arrebata às alturas a vãs especulações à parte da Palavra, mas imediatamente acrescenta que as profecias não deveriam ser desprezadas [1Ts 5.19,20]. Como o quê acena, não dubiamente, que a luz do Espírito é sufocada assim que as profecias são tratadas com desprezo.
Autor: João CalvinoFonte: As Institutas da Religião Cristã, edição clássica, ed. Cultura Cristã, Vol 1, pg 93-96. Compre este maravilhoso livro em http://www.cep.org.br.
Onde fundamentar nosa fé
sexta-feira, 17 de agosto de 2007
Invencíveis por Deus
Senhor - Rei da nossa vida
Nós somos do Senhor; vivamos e morramos por ele e para ele. Somos do Senhor; que a sua vontade e a sua sabedoria presidam a todas as nossas ações. Somos do Senhor; relacionemos todos os aspectos da nossa vida com ele como o nosso fim único. Ah, quão proveitoso será para o homem que, reconhecendo que não é dono de si, negue à sua razão o senhorio e o governo de si mesmo e o confie a Deus! Porque, assim como a pior praga, capaz de levar os homens à perdição e à reina, é se comprazerem a si mesmo, assim também o único e singular porto de salvação não está em o homem julgar-se sábio, como tampouco em querer nada de sua vontade própria, mas em seguir unicamente ao Senhor [Rm 14.7,8]. João Calvino, Institutas, Vol 4, pg 177, Edç Esp, Edt CEP.
Com que fim Oramos
quinta-feira, 16 de agosto de 2007
O nosso Mediador, Advogado e Intercessor
Mas, visto que todo homem é indigno de se dirigir a Deus e de se apresentar diante de sua face, a fim de nos livrar da vergonha que sentimos ou que deveríamos sentir, o Pai celeste nos deu seu Filho, o nosso Senhor Jesus Cristo, para ser o nosso Mediador e advogado para com ele, para que, por meio dele, pudéssemos aproximar-nos livremente dele. Como isso nos certificamos de que, tendo tal Intercessor, o qual não pode ser recusado pelo Pai, também nada nos será negado de tudo o que pedirmos em seu nome. Seguros também de que o trono de Deus não é somente trono de majestade, mas também de sua graça, podendo nós comparecer perante ele com toda a confiança e ousadia, em nome de Mediador e Intercessor, para rogar misericórdia e encontrar graça e ajuda, em toda necessidade que tivermos.
João Calvino, As Institutas, Vl 03, Ed. Cep, Edição especial, p. 101
quarta-feira, 15 de agosto de 2007
Quando Deus é corretamente servido
segunda-feira, 13 de agosto de 2007
Fé mune-se de dupla consolação
Capitulo XVII - Sobre a Vida Cristã - Institutas (E) Vol 4, pg 177-186
Sobre a Vida Cristã
1. Introdução
[1539] Dispondo-me a descrever em que consiste a vida do cristão, sei que entro num assunto amplo e muito diversificado, que poderia encher um grande volume, se eu quisesse abranger tudo quanto contém. Sabemos muito bem como são prolixas as exortações dos doutores antigos quando tratam de alguma virtude específica. Não é que simplesmente os que exageram no falar tenham culpa disso, porque sobre qualquer virtude que se queira apreciar e recomendar é tal a abundância de material disponível que parecerá ao mestre que não discutiu bem o assunto se não consumiu nisso muitas palavras. Bem, não é minha intenção estender-me sobre a doutrina da vida cristã de que pretendo tratar apresentando detalhadamente cada virtude e fazendo de cada uma delas longas exortações. Isso pode ser encontrado em livros de outros autores, principalmente nas homilias ou sermões populares dos doutores antigos. Quanto a mim, considero suficiente mostrar certa ordem pela qual o cristão possa ser conduzido e dirigido à verdadeira meta que consiste em ordenar adequadamente a sua vida.
2. Método e limites
[1541] Eu me contentarei, pois, em apresentar uma breve regra geral que lhe sirva de parâmetro para orientar todas as suas ações. [1539] Talvez tenhamos ocasião de, noutra oportunidade, fazer deduções e aplicações como as que encontramos nos sermões dos doutores antigos. O trabalho que temos em mãos exige que exponhamos uma doutrina simples e clara dentro do menor espaço possível.
3. Comparação da filosofia com a Bíblia
Assim como os filósofos tratam de algumas finalidades da honestidade e da retidão das quais deduzem os deveres particulares e todas as ações próprias de cada virtude, assim também a Escritura tem sua maneira de agir neste assunto, maneira aliás muito melhor e mais certa que a dos filósofos. A única diferença é que eles, se sua ambição, exibiram a perspicuidade ou clareza mais notável que puderam, para que se vissem a ordem e a disposição empregadas por eles e assim mostrassem a sua perspicácia. Ao contrário, o Espírito Santo ensina sem exibida ostentação, e nem sempre nem estritamente observa alguma ordem e algum método. Todavia, quando ocasionalmente os emprega, significa que não os devemos despreza.
4. Divisão bíblica do assunto
Pois bem, a ordem da Escritura da qual falamos consiste de duas partes. Uma visa imprimir em nosso coração o amor pela justiça, para o qual por natureza não temos nenhuma inclinação. A outra visa dar-nos uma regra definida para que, seguindo-a, não fiquemos vagando sem rumo certo e não edifiquemos mal a nossa vida.
Quanto à primeira parte, a Escritura tem muitas razões excelentes para inclinar o nosso coração ao amor pela retidão. Temos feito menção de algumas dessas razões em diversos lugares da nossa obra, e tocaremos nalgumas outras aqui.
5. O padrão divino: santidade
Que fundamento seria melhor para começarmos do que admoestar-nos no sentido de que devemos ser santificados porque o nosso Deus é santo? Fortalecemos o argumento com a lembrança de que, havendo por assim dizer vivido espelhados como ovelhas desgarradas e dispersas pelo labirinto deste mundo, ele nos recolheu para juntar-nos a si. Ao sabermos que Deus promove esta sua união conosco, devemos lembrar que o laço desta união é a santidade. Não que pelo mérito da nossa santidade passemos a gozar da companhia ou da comunhão com o nosso Deus, visto que primeiro é preciso que nos acheguemos a ele para que ele derrame a santidade sobre nós, mas sim que, como não há nenhuma associação da sua glória com a iniqüidade e com a impureza, temos que nos assemelhar a ele porque lhe pertencemos.
Por isso a Escrituras nos ensina que esta é a finalidade da nossa vocação, finalidade à qual devemos estar sempre atentos, se queremos responder positivamente ao nosso Deus. Por que, de que valerá livrar-nos da impureza e da corrupção em que estávamos imersos, se o tempo todo ficamos querendo revolver-nos de novo nessa lama? Além disso, a Escritura nos admoesta no sentido de que, se desejamos estar na companhia do povo de Deus, temos que habilitar em Jerusalém, na sua santa cidade. Cidade que, como ele consagrou e dedicou à sua hora, também não é lícito que seja contaminada e corrompida por habitantes impuros e profanos. Daí decorrem sentenças como esta: “Que, Senhor, habitará no teu tabernáculo? Quem h[a de morar no teu santo nome? O que vive com integridade, e pratica a justiça, e, de coração, fala a verdade” [Sl 15.1,2; 24.3; Is 35.8etc.; Rm 6.1-3,13,17-23].
6. Cristo, nosso Redentor e nosso Modelo
Acresce que, para nos despertar mais vivamente, a Escritura nos demonstra que, assim como Deus em Cristo nos reconciliou consigo, assim também ele o constituiu em exemplo e padrão ao qual devemos amoldar-nos. Que aqueles que consideram que somente os filósofos tratam devidamente da doutrina moral me mostrem em seus livros um método que seja tão bom como o que eu acabo de citar. Quando eles querem exortar-nos quanto podem à virtude, outra coisa não nos passam senão que vivamos como convém à natureza. Já a Escritura nos leva a uma fonte melhor de exortação, quando não somente nos ordena que reportemos toda a nossa vida a Deus, seu autor, mas, depois de nos ter advertido de que nos degeneramos em relação à verdadeira origem da nossa criação, acrescenta que Cristo, reconciliando-nos com Deus, seu Pai, nos é dado como um exemplo de inocência e cuja imagem deve ser representada em nosso viver. Que se poderia dizer com maior veemência e com maior eficácia? Que outra coisa mais se poderia desejar? Porque, se Deus nos adora como seus filhos, com a condição de que a imagem de Cristo se veja em nossa vida, se abandonarmos a justiça e a santidade, não somente estaremos abandonando o nosso Criador com a mais negligente deslealdade, mas também estaremos renunciando a ele como Salvador.
Por conseguinte, a Escritura toma tampo e espaço para nos exortar quanto a todos os benefícios que nos vêm de Deus e a todas as partes da nossa salvação, como quando diz: Visto que Deus nos é dado como Pai, mereceremos ser repreendidos por nossa grande ingratidão, se não nos comportarmos com seus filhos. Visto que Cristo nos purificou e nos lavou com o seu sangue, e nos comunicou está purificação pelo Batismo, é mister que não nos maculemos com nova impureza. Visto que ele nos uniu a si e nos enxertou em seu corpo, devemos zelosamente cuidar que não nos contaminemos de modo algum, já que somos seus membros. Visto que ele, que é a nossa Cabeça, subiu ao céu, é de toda conveniência que nos desfaçamos de todo apego às coisas terrenas, para aspirarmos de todo coração à vida celestial. Visto que o Espírito Santo nos consagrou para sermos templos ou santuários de Deus, é necessário que façamos tudo o que pudermos para que a glória de Deus seja exaltada em nós, e, por outro lado, para que não nos deixemos manchar por nenhuma forma de contaminação do pecado. Visto que a nossa alma e o nosso corpo foram destinados à imortalidade do reino de Deus e à incorruptível coroa da sua glória, é necessário que nos esforcemos para conservar alma e corpo puros e imaculados, até o dia Senhor.
Aí estão fundamentos verdadeiramente bons e próprios para que sobre eles edifiquemos a nossa vida. Não se vai encontrar nada parecido em todos os filósofos, porque eles nunca vão além dos limites da dignidade meramente natural do homem, quando procuram mostrar qual é o seu dever.
7. Mensagem aos cristãos nominais
Nesta altura devo dirigir a palavra àqueles que, não tendo nada de Cristo exceto o título, entretanto querem ser reconhecidos como cristãos. Que atrevimento deles, quererem gloriar-se em seu sacrossanto nome! Pois só têm relação de amizade com Cristo aqueles que o conhecem verdadeiramente mediante a Palavra do evangelho. Pois bem, o apóstolo Paulo nega que alguém possa receber o correto conhecimento de Cristo, a não ser aquele que aprendeu a despojar-se “do velho homem, que se corrompe segundo as concupiscências do engano”, sendo então revestido do novo homem [Ef 4.20-24].
Vê-se, pois, que é baseados em ensinamentos falsos que esses tais dizem que conhecem a Cristo. E com isso lhe fazem grande injúria, por mais belas que sejam as suas palavras. Porque o evangelho não é uma doutrina de língua, mas de vida. E, diferentemente das outras disciplinas, não se apreende só pela mente e pela memória, mas deve envolver e dominar a alma e ter como sede e receptáculo as profundezas do coração. De outra forma, o evangelho não será recebido adequadamente como deve ser. Portanto, ou que tais cristãos nominais deixem de se gabar do que não são, com o que afrontam vergonhosamente a Deus, ou que tratem de mostrar que são discípulos de Cristo.
Demos o primeiro lugar à doutrina em matéria de religião, uma vez que constitui o princípio da nossa salvação. Mas, para que nos seja útil e frutífera, também é necessário que ela nos penetre o íntimo do coração e demonstre o seu poder em nossa vida, e que até mesmo nos transforme fazendo-nos conformes à sua própria natureza. Se os filósofos com razão ficam indignados contra aqueles que, declarando0se amantes da arte, a que eles chamam mestra da vida, contudo a convertem numa loquacidade sofística, muito maior razão temos nós para detestar os palradores que se contentam em ter o evangelho na boca, desprezando-o totalmente em sua maneira de viver! Pois a eficácia do evangelho deveria penetra as profundezas do coração e arraigar-se na alma, cem mil vezes mais que todas as exortações filosóficas, que, em comparação, não tem grande vigor!
8. Reconhecendo limitações, o cristão deve aspirar a perfeição requerida por Deus
Não exijo que a vida do cristão seja um evangelho puro e perfeito, embora o devamos desejar e esforçar-nos por esse ideal. Não exijo, pois, uma perfeição cristã de tal maneira estrita e rigorosa que me leve a não reconhecer como cristão a quem não tenham alcançado. Porque, se fosse assim, todos os homens do mundo seriam excluídos da igreja, visto que não se encontra nem um só que não esteja bem longe dela, por mais que tenha progredido. E a maioria ainda não avançou nada ou quase nada. Todavia, nem por isso os devemos rejeitar. Que fazer então?
Certamente devemos ter diante dos nossos olhos como nossa meta a perfeição que Deus ordena, para a qual todas as nossas ações devem ser canalizadas e à qual devemos visar. Repito: temos que nos esforçar para chegar à meta. Sim, pois não é lícito que compartilhemos com Deus apenas aceitando uma parte do que nos é ordenado em sua Palavra e deixando o restante a cargo da nossa fantasia. Porque Deus sempre nos recomenda, em primeiro lugar, integridade [Gn 17.1]. Com essa palavra ele se refere a uma pura singeleza e sinceridade de alma, destituída e limpa de toda fantasia ou ficção e contrária à dobrez do coração. Como, porém, enquanto estamos nesta prisão terrena, nenhum de nós tem a presteza necessária, e, na verdade a maior parte de nós é tão fraca e débil que vacila e coxeia pouco podendo avançar, prossigamos avante, cada um segundo a sua pequena capacidade, e não deixemos de seguir o caminho no qual começamos. Ninguém caminhará tão pobremente que não avance ao menos um pouco por dia, ganhando terreno.
Portanto, não cessamos de buscar a meta proposta, aproveitando constantemente os benefícios da vereda do Senhor. E não nos desanimemos, ainda que o nosso proveito seja diminuto. Mesmo que o nosso progresso não corresponda ao que imaginávamos, o esforço não foi totalmente perdido quando se vê que o dia de hoje supera o de ontem. Somente fixemos os nossos olhos na meta com pura e sincera simplicidade, e façamos todos os esforços possíveis para alcançá-la, sem acariciar o nosso ego com vã adulação nem desculpar os nossos erros morais. Esforcemos-nos sem cessar, empenhado em que cada dia sejamos melhores do que somos, até alcançarmos a bondade suprema, que devemos buscar durante toda a nossa vida. Perfeição que obteremos quando, despojados da fraqueza da nossa carne, seremos feitos plenamente partícipes dela, isto é, quando Deus nos acolher para vivermos para sempre em sua companhia.
9. Não somos nossos; somos do Senhor
[1541] Passemos agora à segunda parte. Embora Leis de Deus tenha, como tem, um excelente método e um arranjo bem ordenado com vistas à edificação da nossa vida, não obstante pareceu bem ao nosso bondoso Mestre celestial formar os seus por meio de uma doutrina mais sublime que a que nos é comunicada em sua Lei.
Então, o princípio dessa forma de instrução consiste em determinar que é dever dos crentes oferecerem seu corpo “por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus”, que constitui o culto legítimo que lhe devemos prestar [Rm 12.1]. Deste princípio decorre a exortação a que eles não se acomodem à imagem deste século, mas que sejam transformados pela renovação da sua mente, para buscar e experimentar a vontade de Deus. Temos aí já um importante motivo para dizer que somos pessoas consagradas e dedicadas a Deus para que não pensemos, nem meditemos, nem façamos coisa alguma que não seja para a sua glória. Porque não é lícito aplicar algo sagrado a uso profano. Ora, se nós não nos pertencemos, mas somos do Senhor, vê-se claramente o que devemos evitar para não errarmos, e para onde devemos canalizar todas as ações que praticarmos em nosso viver.
Não somos de nós mesmos; portanto, não permitamos que a nossa razão e a nossa vontade exerçam domínio sobre nossos propósitos e sobre nossas ações. Não somos de nós mesmos; portanto, não tenhamos como nosso objetivo buscar o que nós traz proveito à carne. Não somos de nós mesmos; esqueçamo-nos, pois, de nós mesmos, quando possível, e de tudo o que nos cerca.
E agora: nós somos do Senhor; vivamos e morramos por ele e para ele. Somos do Senhor; que a sua vontade e a sua sabedoria presidam a todas as nossas ações. Somos do Senhor; relacionemos todos os aspectos da nossa vida com ele como o nosso fim único. Ah, quão proveitoso será para o homem que, reconhecendo que não é dono de si, negue à sua razão o senhorio e o governo de si mesmo e o confie a Deus! Porque, assim como a pior praga, capaz de levar os homens à perdição e à reina, é se comprazerem a si mesmo, assim também o único e singular porto de salvação não está em o homem julgar-se sábio, como tampouco em querer nada de sua vontade própria, mas em seguir unicamente ao Senhor [Rm 14.7,8].
10. Passos da vida cristã e do serviço a Deus
O primeiro passo é, pois, que nos afastemos de nós mesmos a fim de aplicarmos todas as forças da nossa mente ao serviço de Deus. Chamo serviço não somente o que consiste na obediência à Palavra de Deus, mas também aquele pelo qual o entendimento do homem, despojado dos seus próprios sentimentos, converte-se inteiramente e se sujeita ao Espírito de Deus. Essa transformação, que o apostolo Paulo chama renovação da mente [Rm 12.1, ver também Ef 4.22-24], tem sido ignorada por todos os filósofos, apenas de constituir o primeiro ponto de acesso à vida. Eles ensinam que somente a razão deve reger e dirigir o homem, e pensam que só a ela devemos ouvir e seguir; com isso, atribuem unicamente à razão o governo da vida. Por outro lado, a filosofia cristã pretende que a razão ceda e se afaste, para dar lugar ao Espírito Santo, e que por ele seja subjugada e conduzida, de modo que já não seja o homem que viva, mas que, tendo sofrido com Cristo, nele Cristo viva e reine [Gl 2.19,20].
11. Buscar não o que nos agrada, mas o que agrada e glorifica Deus
Disso decorre a segunda parte de que falamos, que não busquemos as coisas que nos agradam, mas as que agradam a Deus e que se prestam para exaltar a sua glória.
Temos aqui também uma grande virtude, no sentido de que, praticamente nos esquecemos de nós mesmos, ou ao menos procurando não nos preocupar com nós mesmos, apliquemos e dediquemos com fidelidade nossos diligentes esforços para seguir a Deus e obedecer aos seus mandamentos. Porque, quando a Escritura nos proíbe preocupar-nos particularmente com nós mesmos, não somente elimina do nosso coração a avareza, a ambição de poder e de receber grandes honras e alianças impróprias, mas também quer extirpar de nós toda ambição e apetite de glória humana, e outros males ocultos. É, pois, necessário que o cristão se disponha de tal maneira a que todo o seu pensamento se dirija às boas relações que deve manter com Deus a vida toda. Seja esta a sua preocupação: consciente de que terá que prestar contas de todas as suas obras a deus, dirigirá a ele todas as suas intenções e nele as manterá fixas.
Uma razão disso é que todo aquele que tem Deus em sua mente em todas as obras que pratica facilmente evita que o seu espírito se deixe levar por pensamentos e projetos vãos. Refiro-me à abnegação ou à renúncia de nós mesmos que Cristo com tanto empenho e zelo exige [Mt 16.24] de todos os seus discípulos, como sua primeira aprendizagem. Então, uma vez ocupado nesse exercício o coração do homem, logo são exterminados dele o orgulho, a arrogância e a ostentação, como também a avareza, a intemperança, a superfluidade e a busca de prazeres, juntamente com todos os demais vícios e males gerados pelo amor a nós mesmos.
Por outro lado, onde não reina este espírito de abnegação, ou o homem se extravasa em todo tipo de vilania sem o menor pudor, ou, caso haja alguma aparência de virtude, esta é corrompida por uma pecaminosa cobiça de glória. Pois que me mostrem um homem que exerce benignidade gratuitamente, se não renunciou a si mesmo, segundo o mandamento do Senhor. Porque aqueles que não se deixam levar por essa cobiça, no mínimo seguem a virtude com vistas a receberem louvor. Mesmo os filósofos que têm lutado para mostrar que se deve buscar a virtude por amor de virtude, de tal maneira se têm inflado de orgulho que se vê que não desejam a virtude por outro senão o de terem com isso motivo para orgulhar-se.
Pois bem, nem os ambiciosos que buscam glória mundana nem os que se enchem de presunção interior agradam a Deus, tanto assim que ele declara contra os primeiros que já receberam sua recompensa neste mundo, e contra os últimos, que estão mais longe do reino de Deus que os publicanos e os devassos. Contudo, ainda não demonstramos com suficiente clareza quantas coisas impedem o homem que não se negou a si mesmo de se dedica à real prática do bem. Os antigos já diziam com razão que há um mundo de vícios ocultos na alma do homem. E não encontraremos remédio para isso, a não ser que, renunciando ou negando a nós mesmos e deixando de buscar o que nos agrada, impulsionemos e dediquemos o nosso entendimento a buscar as coisas que Deus exige de nós, e a buscá-las unicamente porque lhe são agradáveis.
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Autor: João Calvino
Fonte: As Institutas da Religião Cristã, edição especial, ed. Cultura Cristã, Vol 4, pg 177-186.
Capítulo XVI - Sobre o Governo Civil - Institutas (E) Vol 4, pg 144-148
Sobre o Governo Civil
1. Transição do governo eclesiástico para o governo civil. Distinção
[1536] Sendo, pois, que foram constituídos para o homem dois regimes e que já falamos suficientemente sobre o primeiro, que reside na alam, ou no homem interior, e que concerne à vida eterna, aqui se requer que também exponhamos claramente o segundo, que visa a unicamente estabelecer uma justiça civil e aperfeiçoar os costumes exteriores.
Primeiro, antes de avançar no assunto, devemos recordar a distinção anteriormente exposta para não suceder o que comumente sucede com muitos, o erro de confundir inconsideradamente as duas coisas, as quais são totalmente diferentes. Porque eles, quando ouvem no evangelho a promessa de uma liberdade que não reconhece rei nem senhor entre os homens, mas se atém unicamente a Cristo, acham que não gozarão nenhum fruto essa liberdade enquanto virem algum poder acima deles. E pensam que nada irá bem, a não ser que todo o mundo se converta a uma nova forma, na qual não haja nem julgamentos, nem leis, nem magistrados nem coisa alguma semelhante pela qual considerem que a sua liberdade está sendo impedida. Mas quem souber discernir entre corpo e alma, entre esta presente vida transitória e a vida por vir, que é eterna, entenderá igualmente muito bem que o reino espiritual de Cristo e a ordem civil são coisas muito diferentes.
Visto, pois, que é uma loucura judaica cercar e encerrar o reino de Cristo sob os elementos deste mundo, e nós, antes, pensamos (como a Escritura nos ensina amplamente) [Gl 5; 2Co 7.21] que o fruto que nos cabe receber da graça de Cristo é espiritual, cuidemos zelosamente de manter dentro dos seus limites esta liberdade, a qual nos é prometida e oferecida em Cristo. Pois, por que é que o próprio apóstolo que nos ordena que não ordena que não nos submetamos de novo “a jugo de escravidão”, noutra passagem ensina que os servos não devem preocupar-se com o estado no qual estejam, sendo que a liberdade espiritual pode muito bem subsistir na servidão civil? Nesse sentido também devem ser entendidas outras declarações que ele faz, quais sejam: que no reino de Deus “não pode haver judeu nem grego; nem escravo num liberto; nem homem nem mulher” [Gl 3.28]. E igualmente: “não pode haver grego nem judeu, circuncisão nem incircuncisão, bárbaro, cita, escravo, livre; porém Cristo é tudo em todos” [CL 3.11]. Com essas sentenças Paulo quer dizer que é indiferente a condição a que pertencemos entre os homens, ou qual a nação a cujas leis devemos obediência, visto que o reino de Cristo não se localiza nestas coisas.
2. A distinção feita não autoriza a negligência quanto aos deveres civis e cívicos
Todavia, esta distinção não tem como finalidade levar-nos a considerar que as determinações legais relacionadas com práticas manchadas pelo mal não dizem respeito aos cristãos. É a pura verdade que alguns amantes de utopias hoje em dia falam dessa maneira, isto é, afirmam que, como fomos mortos por Cristo para os elementos deste mundo e fomos transferidos para o reino de Deus, para as realidades celestes, devemos considerar como coisa vil e indigna da nossa excelência ocupar-nos dessas solicitudes imundas e profanas concernentes aos negócios deste mundo, dos quais os cristãos devem ficar longe e totalmente afastados. “Para que servem as leis”, dizem eles, “não havendo litigantes nem julgamentos? E que é que têm que ver os litigantes com o homem cristão? E mesmo considerando a proibição de matar, com que propósito nós haveríamos de ter leis e julgamentos?” Mas, como pouco acima advertimos que essa espécie de regime é diferente do reino espiritual e interior de Cristo, também nos é necessário saber, por outro lado, que de forma alguma o repugna.
3. O cristão neste mundo aspirar à eternidade
Dizemos o que acima foi dito porque o reino espiritual já na terra nos faz sentir certo gosto do reino celestes, e nesta vida mortal e transitória certo gosto da bem-aventurança imoral e incorruptível. Mas o objetivo do reino temporal é fazer que possamos adaptar-nos à companhia dos homens durante o tempo que nos cabe viver entre eles, estabelecer os nossos costumes em termo de uma justiça civil, viver em harmonia uns com os outros, e promover e manter paz e tranqüilidade comum. Reconheço que todas estas coisas seriam supérfluas, se o reino de Deus, que ora se matem em nós, anulasse a presente existência. Mas se é da vontade de Deus que caminhemos na terra enquanto aspiramos à nossa verdadeira pátria, a se, ademais, tais acessórios são necessários nessa viagem para lá, os que querem separá-los do homem vão contra a sua natureza humana.
Porque, no tocante ao que os tais sonhadores alegam, que deve existir na igreja uma perfeição tal que seja suficiente para cobrir todas as leis, ou que as torne dispensáveis , é pura imaginação deles tal perfeição; jamais se poderá encontrar na comunidade dos homens. Pois, se a insolência dos maus é tão grande e a maldade tão rebelde que a duras penas se pode manter a ordem pelo rigor das leis, que se poderá esperar deles, se descobrirem que gozam de desenfreada liberdade para a prática do mel? Pois é preciso um esforço enorme para à força contê-los e impedi-los de praticar o mal!
4. Alguns benefícios do governo civil
Haverá, porém, logo adiante, um espaço mais oportuno para se falar da utilidade do governo civil. No presente, queremos tão-somente dar a entender que, querer rejeitá-lo é uma barbárie desumana, pois que a sua necessidade entre os homens não é menor que a de pão, água, sol e ar, e a sua dignidade é muito maior ainda. Porque não se relaciona apenas com o que os homens comem, bebem e buscam para o seu sustento (se bem que abrange todas estas coisas, tornando possível aos homens viverem juntos). Contudo, não se limita a isso, mas também visa a benefícios como os seguintes: impedir que a idolatria, as blasfêmias contra o nome de Deus e contra a sua verdade, e outros escândalos relacionados com a religião sejam publicamente fomentados e semeados entre o povo; velar para que a tranqüilidade pública não seja perturbada; proteger a propriedade de cada um; vigiar para que os homens façam seus negócios sem fraude nem prejuízo; em suma, que possa expressar-se uma forma pública da religião entre os cristãos, e que a humanidade subsista entre os seres humanos.
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Autor: João Calvino
Fonte: As Institutas da Religião Cristã, edição especial, ed. Cultura Cristã, Vol 4, pg 144-148.
Capítulo XV - Sobre o Poder Eclesiástico - Institutas (E) Vol 4, pg 105,106
Sobre o Poder Eclesiástico
1. Combate introdutório contra o clero usurpador
[1536] Assim como tudo o que foi dito anteriormente sobre a liberdade cristã pertence ao reino espiritual, igualmente nesta discussão não combatemos a autoridade das leis civis, mas o poder que usurpam os que querem ser vistos como pastores da igreja e, ao contrário, são, verdadeiramente, carrasco cruéis. Porque eles dizem que as leis por eles feitas são espirituais e pertinentes à alma e afirma que são necessárias à vida eterna. Com isso, o reino de Cristo sofre assalto e é violado, e a liberdade por ele dada à consciência dos crentes sofre opressão e é derribada. Por ora eu deixo de falar sobre qual impiedade eles baseiam a observância das suas leis, alegando eles que por esse meio obtemos a remissão dos pecados e a justiça, incluindo nelas a soma total da religião.
Por ora só debaterei o seguinte ponto: não se deve impor necessidade ou obrigatoriedade ás consciências nas coisas das quais elas foram libertadas por Jesus Cristo, recebendo liberdade sem a qual elas não podem estar em paz com Deus, como previamente ensinamos.
2. Reconheçamos um só Rei, Cristo, e uma só lei, a lei da liberdade em Cristo
As consciências cristãs devem reconhecer como Rei um só Cristo, seu Libertados, e que são governadas somente pela lei da liberdade, que é sagrada Palavra do evangelho. Isto se é que desejam manter a graça que uma vez obtiveram em Jesus Cristo. E que elas não se sujeitem a nenhuma servidão, nem se deixem capturar por laço algum.
3. Onde o jugo suave e o fardo leve?
Esses legisladores fazem parecer que as suas constituições são leis de liberdade, jugo suave e fardo leve. Mas quem não vê que são puras mentiras? Quanto a eles próprios, nem sentem o peso da suas leis, visto que, tendo rejeitado totalmente o temor de Deus, com atrevimento desprezam igualmente as suas leis e as de Deus. Mas os que se sentem tocados por algum sentimento de dever quanto à sua salvação, estão muito longe de considerar-se livres, tão presos estão aos seus laços.
4. Que diferença de Paulo!
Vemos quão diligentemente Paulo evitou sobrecarregar as consciências, ao ponto de não ousar prendê-las nem com uma só coisa. E não sem motivo. Certamente ele sabia que é verdadeira praga mortal impor ás consciências a obrigatoriedade das coisas cuja liberdade lhes foi dada por deus. Por outro lado, com dificuldade se poderia contar as numerosas constituições que os que aqui estamos combatendo têm ordenado rigorosamente, sob pena de morte eterna, e às quais eles obrigado têm ordenado rigorosamente, sob pena de morte eterna, e às quais eles obrigam os homens como sendo essenciais à salvação. Entre elas há exigências muito difíceis de cumprir, e, tomadas todas em conjunto, são inexeqüíveis, pelo seu número excessivamente grande. Que é que se pode fazer, então, para que não se sintam premidos de angústia e perplexidade os que se sentem sobrecarregados com tão duto fardo?
Por isso nos cabe concluir brevemente, conforme já ensinamos, que a nossa consciência não deve levada a considerar-se obrigada para com Deus a todas as constituições feitas com o fim de manter presas as almas crentes perante Deus, incluindo uma obrigação, como se ordenassem coisas indispensáveis para a salvação. Ora, são desse jaez todas as constituições hoje chamadas eclesiásticas, as quais eles dizem que são necessárias para que honremos e sirvamos bem a Deus. E como são inumeráveis tais constituições, igualmente inumeráveis são os laços que tendem a manter cativa a nossa alma.
5.Não há então nenhum poder eclesiástico legítimo?
Como, então? Não há nenhum poder eclesiástico? Muitas pessoas simples, que são as que principalmente desejamos ensinar, espantam-se com essa nossa objeção.
Respondemos que na verdade não reconhecemos nenhum poder eclesiástico, a não se que, como diz o apóstolo Paulo [2Co 10 E13], seja dado para edificação, não para destruição. Os que fazem bom uso desse poder não se consideram nada mais do que “ministro de cristo e despenseiros dos mistérios de Deus” [1Co 4.1].
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Autor: João Calvino
Fonte: As Institutas da Religião Cristã, edição especial, ed. Cultura Cristã, Vol 4, pg 105,106.
Capítulo XIV - Sobre a Liberdade Cristã - Institutas (E) Vol 4, pg 89,90
Capítulo XIV - Vol 4, pg 89,90
Sobre a Liberdade Cristã
1. Introdução
[1536] Devemos tratar agora da liberdade cristã, assunto do qual deve esquecer-se quem se proponha a abranger num breve compêndio uma súmula de toda a doutrina evangélica. Esse estudo é muito necessário, e, sem o conhecimento dele, dificilmente as consciências ousarão empreender alguma coisa, senão em dúvida, muitas vezes hesitando e parando; sempre temerosos e vacilantes.
Embora tenhamos vez por outra tocado de leve neste tema, todavia o adiamos e reservamos sua discussão completa até o presente espaço. Tivemos este cuidado porque, se for feita alguma menção da liberdade cristã antes da hora, de imediato uns dão rédeas solta às suas concupiscências e outros promovem grandes tumultos, se ao mesmo tempo não se puser ordem para conter os espíritos levianos, que corrompem as coisas mais excelentes que a eles se apresentem. Porquanto uns, a título de seguirem esta liberdade, rejeitam toda obediência a Deus e dão livre curso à sua carne. Já outros se opõem e não querem ouvir falar desta liberdade, pois acham que ela só se presta para derrubar toda ordem, toda modéstia e toda discrição.
Que fazer aqui, em tal aperto? Não seria melhor deixar de lado a discussão sobre a liberdade cristã para enviar evitar tais perigos? Mas, como foi dito, sem este conhecimento, nem Jesus Cristo nem a verdade do evangelho poderão ser bem conhecidos. Muito ao contrário, devemos pôr toda a diligência no sentido de que esta doutrina tão necessária não fique omissa e sepultada e que, ao mesmo tempo, se ponha freio às objeções absurdas movidas contra ela.
2. Três partes componentes da liberdade cristã
Segundo o meu juízo, a liberdade cristã compõe-se de três partes. A primeira é que, em geral, a consciência dos crentes, quando a questão é buscar a certeza da sua justificação, se exalta e se eleva acima da Lei, e esquece toda a justiça que é própria da Lei. Porque, como acima foi demonstrado, visto que a lei não vos deixa nenhum justo, ficamos neste impasse: ou só nos resta perder toda a esperança de sermos justificados, ou é preciso que sejamos libertados dela. E que fiquemos de tal modo livres dela que não precisamos nem pensar em nossas obras. Porque, aquele que pensar que deve contribuir um pouco que seja com suas obras para obter justiça, não conseguirá determinar nem o fim nem a medida delas, mas se fará devedor de toda a Lei. Por isso, quando se trata da nossa justificação devemos desfazer-nos de toda e qualquer consideração da Lei e das nossas obras, para abraçarmos unicamente a misericórdia de Deus, e devemos afastar de nós mesmos o olhar para fixá-lo somente em Jesus Cristo. Porque neste ponto não se trata da saber se somos justo, mas, sim, de saber como é que, sendo injustos e indignos, podemos ser considerados justo. Se a nossa consciência quer ter alguma certeza disso, não deve dar nenhum lugar à Lei.
Note-se, porém, que isso não deve levar a inferir que a Lei é supérflua para os crentes, porquanto ela não deixa de ensiná-los, exortá-los e estimulá-los à prática do bem, conquanto seja um fato de que no juízo de deus ela não tem lugar em nossa consciência. Sendo, pois, que estas duas coisas são bem diferentes, assim também nos é necessário discernir-las cautelosa e diligentemente.
Toda a vida dos cristãos deve ser uma constante meditação e exercício ou prática da piedade, visto que somos chamados para a santificação (Ef 1.4; 1 Ts 4.3,7). Nisto consiste o ofício da Lei: em advertir os cristãos do seu dever e incitá-los a amar a santidade e a inocência. Mas quando as consciências se inquietam sobre como poderão torna Deus propício, sobre o que terão para responder e em que tipo de confiança elas poderão manter-se quando chamadas e denunciadas no tribunal de Deus, não devem quere prestar contas baseadas na lei, nem devem preocupar-se em saber o que ela exige, mas devem ter consigo unicamente a Jesus Cristo como sua justiça, seguros de que ele sobrepuja toda a perfeição da Lei.
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Autor: João Calvino
Fonte: As Institutas da Religião Cristã, edição especial, ed. Cultura Cristã, Vol 4, pg 89,90.
Capítulo XIII - Sobre as cinco ouras cerimônias falsamente chamadas Sacramentos - Institutas (E) Vol 4, pg 51,52
Sobre as cinco ouras cerimônias falsamente chamadas Sacramentos, Quais sejam: A Confirmação, A Penitência, A Extrema-unção, As ordens Eclesiásticas e o Casamento.
1. Introdução
A discussão que se fez no capítulo anterior sobre os sacramentos pode satisfazer a todas as pessoas sóbrias e dóceis, não dispostas a ir adiante em sua curiosidade nem a acatar, se base na Palavra de Deus, outros sacramentos além dos que foram instituídos pelo Senhor. Mas, como foi introduzida a opinião favorável a sete sacramentos, opinião muito como entre os homens e tão divulgada nas escolas, nos debates, nos sermões que lançou antigas e profundas raízes no coração de todos em geral, e ali continua fixa e arraigada, pareceu-me proveitoso considerar separadamente e mais de perto as outras cincos cerimônias que comumente são incluídas entre os sacramentos do Senhor. Pretendo, depois de pôr a descoberto toda a sua falsidade, dar a conhecer aos simples o que realmente elas são, e por que, sem nenhuma razão, são recebidas com se fossem sacramentos. Vejamos:
2. Só Deus pode instituir sacramentos
Desde logo devemos reter e manter o que já comprovamos com argumentação irrefutável; que poder de instituir sacramentos só pertence ao Deus único. Pois, graças à promessa firme e segura de Deus, o sacramento deve dar segurança e consolo à consciência dos crentes, segurança que eles nunca poderiam obter dos homens. O sacramento deve ser para nós um testemunho da boa vontade de Deus para conosco. Ora, nenhum dos homens nem dos anjos jamais poderia dar tal testemunho, visto que nenhum deles foi conselheiro de Deus (Rm11.34). É somente Deus que de si mesmo nos dá testemunho por sua Palavra. O sacramento é um selo que se imprime no Testamento e n promessa de Deus. Ora, coisas corporais e elementos deste mundo não poderiam servir-lhes de selo, se para isso não fossem competentemente assinalados e destinados. Portanto, o homem não pode instituir sacramento, pois não cabe ao poder humano fazer que tão grandes ministérios de Deus se ocultem sob coisas tão vis. É necessária a precedência da Palavra de Deus para fazer com que o sacramento seja de fato sacramento.
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Autor: João Calvino
Fonte: As Institutas da Religião Cristã, edição especial, ed. Cultura Cristã, Vol 4, pg 51,52.
Capítulo XII - Sobre a Ceia do Senhor - Institutas (E) Vol 4, pg 5,6
Sobre a Ceia do Senhor
1. Propósito da instituição da Ceia
[1536] O outro sacramento instituído pelo Senhor e por ele dado à igreja cristã é o pão santificado pelo corpo do Senhor Jesus Cristo e o vinho santificado pelo seu sangue, como os antigos costumavam falar. E nós lhe chamados Ceia do Senhor, ou Eucaristia, porque por ele somos alimentados e fortalecidos espiritualmente pela benignidade do Senhor, e, de nossa parte, lhe rendemos graças por sua bênção.
A promessa que aí nos é feia mostra claramente com que fim foi instituído e a que visa, o que se pode expor nestes termos: o sacramento da Ceia nos assegura e confirma que o corpo do Senhor Jesus Cristo foi entregue uma vez por nós de tal maneira que agora é nosso, e o será perpetuamente; e, igualmente, que o seu sangue foi derramado uma vez por nós de tal maneira que será nosso para sempre.
2. Necessidade de contestar os que negam que o sacramento é exercício da fé
É por isso que novamente se refuta até à persuasão o erro daqueles que se atrevem a negar que os sacramentos são uma forma de exercício da fé, dados para mantê-la, elevá-la, fortalecê-la e aumentá-la. Portanto estas são as palavras do Senhor a esse respeito: “Este é o cálice da nova aliança no meu sangue”(Lc 22.20; 1Co 11.25); quer dizer, é um sinal e um testemunho de uma promessa. E onde há promessa, ali a fé tem sobre o que se apoiar e com que se consolar e se fortalecer.
3. Frutos da Ceia
Nossa alma pode obter deste sacramento frutos de grande dulçor e consolação, porque nos apercebemos de que Jesus Cristo está de tal modo incorporado em nós, e nós nele, que tudo o que é dele podemos dizer que é nosso, e tudo o que é nosso, podemos declarar que é dele. Por isso ousamos afirmar com segurança que a vida eterna é nossa e que o reino dos céus não no pode ser retirado, nos mesmos termos em que o próprio Senhor Jesus Cristo não pode ser privado dele. Por outro lado, podemos assegurar que não podemos ser condenados por nossos pecados, não mais que Cristo, porque não são mais nossos, mas dele. Não que seja possível atribuir-lhe alguma culpa, mas sim que ele se constituiu devedor em nosso lugar, e é bom pagador. Esta é a permuta que, em sua bondade infinita, ele quis fazer conosco: recebei nossa pobreza, e nos transferiu suas riquezas; levou sobre si a nossa fraqueza, e nos fortaleceu com o seu poder; assumiu a nossa mortalidade, e fez nossa a sua imortalidade; desce à terra, e abriu o caminho para o céu; fez-Filho do homem, e nos fez filhos de Deus.
Essas coisas são prometidas ta completamente por Deus neste sacramento que devemos estar certos e seguros de que nele são demonstradas tão verdadeiramente que é como se Jesus Cristo mesmo estivesse ali presente pessoalmente, visivelmente, e que o víssemos com os nossos próprios olhos, e tão palpavelmente que é como se o tocássemos com as nossas próprias mãos. Porque esta sua palavra não pode falhar nem mentir: “Tomai, comei; isto é o meu corpo... Bebei dele todos; porque isto é o meu sangue, o sangue da nova aliança, derramado em favor de muitos, para remissão de pecados” (Mt 26.26-28; Mc 14.22-24; Lc 22.19,20; 1 Co 11.23-25). Ordenando que o tomemos, ele quer dizer que é o nosso. Ordenando que o comamos e o bebamos, demonstra que ele é feito uma substância conosco. Quando ele diz “Isto é o meu corpo oferecido por vós; este é o meu sangue derramado por vós”, declara e ensina que são mais nossos que dele, porque ele os assumiu e os deixou, não para se favorecer, mas por amor de nós e para nosso proveito.
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Autor: João Calvino
Fonte: As Institutas da Religião Cristã, edição especial, ed. Cultura Cristã, Vol 4, pg 5,6.
Capítulo XI - O Batismo - Institutas (E) Vol 3, pg 141-144
O Batismo
1.Objetivos da instituição do Batismo
[1536] O Batismo nos foi dado por Deus primeiramente para servir à nossa fé naquele que o instituiu e, em segundo lugar, para servir à nossa confissão dessa fé perante os homens. Trataremos nessa ordem desses dois objetivos e motivos da sua instituição.
Quanto ao primeiro objetivo, o Batismo faz três benefícios à nossa fé, os quais é necessário examinar separadamente, um por vez. Primeiro, o propósito de Deus é que ele seja um símbolo e um sinal da nossa purificação, ou, melhor dizendo, foi-nos enviado por Deus como uma mensagem pela qual ele nos comunica, confirma e assegura que todos os nossos pecados foram perdoados, cobertos, abolidos e cancelados de tal maneira que jamais serão apresentados à sua consideração, nem recordados para nova remissão, nem imputados a nós. Nesse sentido, ele quer que todos os que crerem sejam batizados para a remissão dos pecados [Mt 28.19; At 2.38]. Por isso, aqueles que se atreveram a escrever que o Batismo não é senão uma marca e um símbolo pelo qual declaramos diante dos homens a nossa religião, como um soldado leva a farda e a insígnia do seu príncipe para com isso declarar-se subordinado a ele, deixaram de considerar o principal do Batismo, a saber: que devemos recebê-lo com a promessa de que os que crerem e forem batizados receberão a salvação [Mc 16.16].
2. Fundamentos bíblicos
Nesse sentido, se deve entender o que apóstolo Paulo escreveu [Ef 5.26], que Cristo se entregou pela igreja, sua esposa, “para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra”, isto é, pelo Batismo com água. E noutros lugar [Tt3.5], que, “segundo a sua misericórdia, ele nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo”. E também o que o apóstolo Pedro escreveu [I Pe 3.21], dizendo que o batismo nos salva. Certo é que o apóstolo Paulo não quer dizer que o nosso lavamento e a nossa salvação sejam realizadas perfeitamente por meio da água; nem que a água contenha alguma virtude ou poder para nos purificar, regenerar ou renovar. Tampouco o apóstolo Pedro quis dizer que a água é a causa da nossa salvação. Eles somente quiseram dizer que no sacramento se recebe a segurança de tais graças. As próprias palavras empregadas explicam isso claramente. Porque o apóstolo Paulo junta a Palavra da vida, que é o evangelho, ao batismo com água, como se dissesse: pelo evangelho nos é anunciada a nossa purificação e santificação, e pelo Batismo esse anúncio ou essa mensagem é simbolizada e selada. E o apóstolo Pedro, depois de dizer que o Batismo nos salva, imediatamente acrescenta: “não sendo a remoção da imundícia da carne” que o faz, “mas a indagação de uma boa consciência par com Deus”, que provém da fé.
[1539] Por outro lado, porém, o Batismo não nos promete outra purificação que a que é feita pela aspersão do sangue de Cristo, representado pela água por sua semelhança com esta, em sua função de lavar e purificar. Quem, pois, dirá que nós somos purificados pela água do Batismo, sendo que ele testifica que o sangue de Cristo é o nosso verdadeiro e único lavamento, a nossa verdadeira e única aspersão? [1 Pe 1.2] Assim, não se poderia encontrar melhor argumento pra refutar o erro daqueles que atribuem tanta virtude à água do que demonstrando o sentido do Batismo.
3 Remissão dos pecados passados e futuros
[1536] Não devemos achar que o Batismo nos é dado unicamente para atestar solução para o passado, de modo que para os pecados que voltemos a cometer depois de termos sido batizados precisamos encontrar outra solução, um novo remédio. Certamente desse erro procede o fato de que antigamente alguns não queriam ser batizados senão no fim da sua existência na terra, na hora da sua morte, para que assim obtivessem pleno e completo perdão para toda a sua vida. Contra essa tola fantasia os bispos falaram muitas vezes em seus escritos.
[1536] Mas devemos saber que em qualquer tempo em que sejamos batizados, somos lavados e purificados uma vez por todas e por todas e por todo o tempo da nossa vida. Por essa razão, toda vez que cairmos em pecado devemos recorrer à lembrança do Batismo e por ela nos confirmar e nos fortalecer na fé, para que estejamos sempre certos e seguros do perdão dos nossos pecados. Porque, embora pareça que, por nos ter sido administrado uma só vez, o Batismo já tinha perdido o seu efeito, todavia ele não é cancelado ou apagado pelos pecados subseqüentes. Porquanto a pureza de Cristo nos é oferecida nele, e a sua pureza está sempre em vigor, dura para sempre, e não há mancha que a possa sobrepujar. A pureza de Cristo elimina toda a nossa sujidade e nos purifica de toda a nossa imundícia.
Contudo, não devemos ver nisso ocasião para pecar depois do Batismo, pois é certo que, neste ensino, não há nada que nos incite a essa audácia. Esta doutrina é oferecida unicamente àqueles que, depois de terem cometido pecado, sentem-se desolados, e se lamentam, cansados e sobrecarregados sob o peso dos seus pecados, para que tenham com que se levantar e se consolar, e não fiquem confusos nem caiam no desespero. Por essa razão, diz o apóstolo Paulo [Rm 3.25] que Jesus Cristo nos foi feito, ele próprio, propiciação pelos pecados passados. Com isso ele não quis dizer que nele não temos perpétua e continua remissão dos pecados, até à nossas morte. O que quis dizer é que Cristo foi dado pelo Pai aos pobres pecadores que, feridos pelo cáustico cautério da consciência, suspiram pelo médico. A esses é oferecida a misericórdia de Deus. Mas aqueles que, descansados em sua impunidade, buscam e tomam ocasião e liberdade para pecar, só o que fazem é provocar contra si mesmos a ira e o juízo de Deus.
4. Mortificação e nova vida em Cristo
O segundo consolador benefício que nos fé o Batismo é que nos mostra a nossa mortificação em Jesus Cristo e também a nossa nova vida nele. Porque, com diz o apóstolo Paulo [Rm 6.4], “em Cristo fomos batizados em sua morte” e fomos “sepultado com ele na morte pelo batismo; para que ... também andemos nós em novidade de vida”. Com essas palavras ele nos exorta, não somente a que o imitemos, como se dissesse que o Batismo nos admoesta no sentido de que, à semelhança e segundo o exemplo da morte de Jesus Cristo, morramos para as nossas concupiscências, e que, a exemplo da sua ressurreição, revivamos para a justiça. Não. Ele sobe a maiores alturas e afirma que pelo batismo somos feitos participantes da sua morte, a fim de que sejamos enxertados nela. E como o enxerto extrai a sua substância e o seu nutriente da raiz na qual foi inserido, assim também, aqueles que recebem o Batismo com a fé com a qual ele deve ser recebido, sentem verdadeiramente a eficácia da morte de Jesus Cristo na mortificação da sua carne. E o mesmo se dá também com a sua ressurreição na vivificação do seu espírito. Disso o apóstolo toma ocasião e matéria par nos exortar nos sentido de que, se somos cristãos, morramos para o pecado e vivamos para a justiça. Ele usa o mesmo argumento noutra passagem [Cl 2.11,12], na qual afirma que fomos circuncidados e despojados do velho homem, e então fomos sepultados com Cristo no Batismo. Nesse sentido, na passagem que citamos anteriormente [Tt3.5], ele descreve essa ação como lavamento de regeneração e renovação.
5. A bênção da nossa união com Cristo
[1539] Finalmente, pelo Batismo a nossa fé recebe também esta reconfortante bênção: não somente nos é dada a certeza de que estamos inseridos como enxerto na morte e na vida de Jesus Cristo, mas também que estamos de tal modo unidos a ele que ele nos faz participantes de todos os seus bens. Porque por essa razão, ele consagrou e santificou o Batismo em seu corpo [Mt 3.13], para que fosse um firme laço da comunhão e da união que ele quis ter conosco. Tal é o significado disso que o apóstolo Paulo prova que somos filhos de Deus pelo fato de que pelo Batismo fomos revestidos de Cristo [Gl 3.27}. Vemos, assim, que o cumprimento do Batismo está em Cristo, razão pela qual o chamamos objeto e meta a que o Batismo vida. Por isso não deve causas estranheza que os apóstolos tenham batizado pessoas em nome de Cristo [At 8.16; 19.5], embora tivessem recebido mandamento [Mt 28.19] para batizar em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Porque todos os dons e dádivas de Deus que nos são oferecidos no Batismo se encontram em Cristo e unicamente nele. Todavia, quem batiza em nome de Cristo não pode deixar de invocar igualmente o nome do Pai e do Espírito Santo. Fácil é ver a razão disso, pois, se temos, como é fato que temos, a nossa purificação no sangue de Cristo, é porque o Pai, querendo derramar a sua bondade e a sua clemência, reconciliou-se conosco por meio dele como o Medidor. Como também recebemos a nossa regeneração por sua morte e por sua vida se, santificados pelo Espírito, é por ele edificada em nós uma nova natureza espiritual. Segue-se, pois, que devemos reconhecer que a nossa purificação e regeneração a temos no Pai; a matéria, no Filho; e o efeito, no Espírito Santo. [1536] Vê-se que primeiro João e depois os apóstolos ministraram o Batismo de arrependimento, para remissão dos pecados, entendendo pela palavra arrependimento a regeneração, e pela remissão dos pecados, a purificação [Mt 3.6-11; Lc 3.16; Jo 3.23; 4.1,2; At 2.38,41.].
Aqui são apenas as quatros primeiras páginas do capítulo XI da Institutas – Edição especial. Calvino continua a desenvolver este assunto de forma maravilhosa. Compre este maravilhoso livro em http://www.cep.org.br de seqüência a leitura.
Autor: João Calvino
Fonte: As Institutas da Religião Cristã, edição especial, ed. Cultura Cristã, Vol 3, pg 141-144.
Capítulo X - Os Sacramentos - Institutas (E) Vol 3, pg 141-144
[1536] Os Sacramentos
1. Definição e uso
Agora devemos falar sobre os sacramentos. Temos grande necessidade de receber doutrina correta, pela qual possamos ficar sabendo com que finalidade eles foram instituídos e de que maneira os devemos usar.
Precisamos primeiro entender o que é sacramento. É um sinal exterior pelo qual o Senhor representa para nós e nos testifica a sua boa vontade para conosco, para sustentar, confirmar e fortalecer a nossa fraca fé. Também se pode definir diferentemente o sacramento e descrevê-lo como um testemunho da graça de Deus, testemunho declarado mediante um sinal exterior. Com isso vemos que jamais o sacramento é apresentado sem a Palavra de Deus, que o precede. Ele é acrescentado à Palavra como um apêndice ordenado para simbolizá-la, confirmá-la e certificá-la mais fortemente em nosso interesse, pois o Senhor vê que temos necessidade disto pela ignorância com que julgamos as coisas e pela fraqueza da nossa carne. Não significa que a palavra não seja suficientemente forte e firme em si mesma, ou que ela própria careça de melhor confirmação e fortalecimento (porque outra coisa ela não é senão a verdade de Deus, em si e por si tão certa e segura que não pode receber de outra parte melhor confirmação e fortalecimento; só o pode receber de si mesma); o objetivo é que com ela e por ela sejamos fortalecidos.
A razão disso é que a nossa fé é tão pequena e débil que, se não tiver suporte por todos os lados e não for mantida por todos os meios, de repente se verá totalmente abalada, sacudida e vacilante. E como somos tão ignorantes e tão dados e apegados às coisas terrenas e carnais que não pensamos nem podemos entender nem conceber nada que seja espiritual, o Senhor misericordioso se acomoda com isso à rudeza dos nossos sentidos de modo que, pelos elementos carnais dos sacramentos, ele nos conduz a si e nos faz contemplar, mesmo na carne, o que pertence ao espírito. Não por que as coisas que nos são oferecidas com sacramentos tenham em sua natureza alguma qualidade e algum poder, mas porque são assinadas e assinalas por Deus para terem esta significação.
2. Astúcias totalmente rejeitáveis
Não devemos dar ouvidos a alguns que, em suas astúcias, argumentam falsamente dizendo: “Ou sabemos que a Palavra de Deus, que precede ao sacramento, é a verdadeira vontade de Deus, ou não sabemos. Se o sabemos, nada aprendemos de novo pelo sacramento subseqüente. Se não o sabemos, o sacramento não no-lo poderá ensinar, visto que toda a sua virtude e eficácia jaz na palavra”. Só lhes seja respondido, resumidamente, que os selos que se coloca nas cartas e nos instrumentos públicos, em si nada são, porque, se no pergaminho ou papel não houver nada escrito, eles não servirão para coisa alguma, e em vão serão postos nele. E, todavia, nem por isso eles deixam de confirmar, atesta e tornar mais autêntica a escritura contida nas cartas ou nos documentos, quando a estes os selos são acrescentados. E não poderão dizer que esta figura foi forjada por nós, feita a nosso bel-prazer, pois o apóstolo Paulo fez uso dela quando se referiu ao sacramento da circuncisão com uma palavra grega [Rm4.11], a saber, sfraguida (quer dizer selo).
[1539] Na passagem acima citada, o apóstolo demonstra que a circuncisão não foi imputada a Abrão para justiça. É antes um selo da aliança, na confiança e garantia da qual ele já tinha sido justificado. E por que, rogo que me digam – por que isso deverá fazer-nos merecedores de injúria, se ensinamos que a promessa é selada pelos sacramentos, viso que é claro e manifesto que, entre as promessas, uma é confirmada por outra? Porque a que é mais manifesta é mais própria para assegurar a fé. Ora, os sacramentos nos trazem promessas claríssimas, e com esta particularidade superior à Palavra, que eles representam vividamente as promessas, com que numa pintura. E não devemos deixar-nos abalar pela diferença que se fala que existe entre os sacramentos e os selos das cartas patentes. A saber, que, uma vez que uns e outros consistem de elementos carnais deste mundo, os sacramentos não podem servir para selar as promessas de Deus, que são espirituais, como acontece com os selos utilizados para selar escritos de príncipes, que tratam de coisas transitórias e obsoletas. Não se leve isso em conta porque o homem crente, ao ver o sacramento, não se prende à exterioridade, mas, sim, com santa consideração, eleva-se para contemplar os altos mistérios ali ocultos conforme a harmonia existente entre a figurar carnal e a realidade espiritual.
3. Sinai e selos da aliança, colunas da fé, espelhos da graça
[1536] Sendo, pois, que o Senhor dá às promessas o nome de acordos ou alianças, e aos sacramentos os de sinais e instruções das alianças, pode-se aproveitar algo da semelhança dos acordos e alianças dos homens [Gn 6.18; 9.9,17; 17.20,21]. Para confirmação dos seus acordos, os antigos costumavam matar uma porca. [1536] Que adiantaria uma porca morta, se não houvesse palavras de acordos, ou melhor, se estas não tivessem sido lavradas antes? Porque, muitas vezes, se matam porcas sem haver nisso mistério nenhum. Semelhantemente, que dizer do aperto das mãos, visto que muitos apertam as mãos dos seus inimigos com a intenção de lhes fazer mal? E, todavia, quando tiverem sido proferidas as palavras de amizade e de aliança, tais sinais servem para confirmá-las, mesmo quando já tenham sido propostas, realizadas e estabelecidas. Portanto, os sacramentos são exercícios praticados com a finalidade de nos tornar mais certos e seguros da Palavra de Deus e de Suas promessas. E como somos carnais, os sacramentos também nos são dados em coisas carnais, a fim de que eles nos instruam conforme a capacidade da nossa rude condição e nos dirijam e nos conduzam como os mestres fazem com as crianças que estão aos seus cuidados. Por isso, Agostinho¹ chama ao sacramento palavra visível, porque nos mostra, como numa pintura, as promessas de Deus, e as representa vividamente para nós.
4. Outras figuras
Podemos usas ainda outras figuras para designar os sacramentos e, por elas, tornar a sua significação mais completa e mais clara. Por exemplo, podemos chamá-los colunas da nossa fé. Porquanto, assim como edifício se fixa e se sustém sobre o seu fundamento, e, contudo, quando se acrescentam a ele colunas que lhe dêem suporte, ele se torna mais seguro e mais firme, assim também a fé descansa e se sustém sobre a palavra de Deus como sobre seu fundamento; mas, quando lhe são acrescentados os sacramentos, estes lhe servem como colunas, sobre as quais se apóia com mais firmeza e mais se fortalece.
Também podemos chamá-los espelhos, nos quais podemos contemplar as riquezas da graça de Deus, por ele distribuídas. Sim, pois, como já foi dito, ele se manifesta a nós à medida que a nossa entorpecida mente o pode conhecer, e por eles testifica a sua boa vontade para conosco.
Nota
¹In Ioh. Tractat. 80.3 (Migne, 35,184) cf. Contra Faustum, lib XIX, c. XVI (Migne. 42,356).
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Autor: João Calvino
Fonte: As Institutas da Religião Cristã, edição especial, ed. Cultura Cristã, Vol 3, pg 141-144.
Capítulo IX - A Oração, com a explicação da oração do Senhor - Institutas (E) Vol 3, pg 91-94.
A Oração, com a explicação da oração do Senhor
1. Introdução, relacionando o texto presente com textos prévios
[1536] Do que foi tratado anteriormente, vemos muito bem quão desnudo e desprovido de todo bem o homem é, e como lhe falta tudo quanto lhe é necessário para a sua salvação. Porque, se ele quiser suprir a sua necessidade, terá que sair de si e buscar socorro fora. Além disso, também foi explicado ao leitor que o Senhor se apresenta a nós liberalmente em seu Filho Jesus Cristo, oferecendo-nos, por meio dele, toda a felicidade, em lugar do nosso infortúnio; toda a abundância, em lugar da nossa pobreza; e nos desvendando, nele, todos os seus tesouros e riquezas celestiais. Com que finalidade? A fim de que toda a nossa fé seja posta no seu dileto Filho, dele seja a nossa dependência, e toda a nossa esperança seja posta nele. Esta é uma filosofia misteriosa, oculta e velada, e não pode ser entendida por meio de silogismos; mas a compreendem aqueles a quem o Senhor abriu os olhos, para que, em sua luz, enxergassem claramente.
Vê-se então que a fé nos ensina que todo o bem que nos é necessário e que em nós mesmos não existe está em Deus e em seu Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, em quem o Senhor constituiu toda a plenitude das suas bênção e da sua liberalidade [Cl 1.19 e contexto; Jo 1.14-18]. Seu propósito é que, como de uma fonte transbordante da qual todos nós nos abeberamos, o busquemos e, por nossas preces e orações, peçamos a ele o que aprendemos que nela há. Porque, diversamente, conhecer a Deus e reconhecê-lo como senhor, autor e distribuidor de todos os bens, e que ele nos convida a solicitá-los dele, e não nos dirigirmos a ele e nada lhe pedirmos, seria tão nulo como se alguém desprezasse e deixasse enterrado e oculto sob o solo um tesouro que lhe tinha sido mostrado. Portanto, devemos tratar agora, mais amplamente, deste ponto, sobre o qual não falamos antes, senão incidentalmente e de passagem.
2. A oração nos leva ao templo celestial
[1539] É, pois, pelo benefício da oração que penetramos nas riquezas que temos em Deus. Porque ela é uma forma de comunicação dos homens com Deus pela qual, sendo introduzidos no verdadeiro templo, que é o céu, eles fazem presentes ao Senhor as suas promessas para que, de maneira experimental, ele lhes mostre, quando a necessidade exigir, que a sua simples palavra, que eles creram ser verdadeira, não é mentida nem coisa vã. Assim, não vemos Deus propor-nos alguma coisa que devemos esperar dele que, paralelamente, não nos mande pedir em oração. Tanto é verdade o que dissemos, que pela oração buscamos e encontramos os tesouros que são expostos e ensinados à nossa fé no evangelho. Agora quanto é necessário, e de quantas maneiras o exercício da oração é útil para nós, não se pode explicar satisfatoriamente com palavras.
3. Invocar o nome do Senhor é segurança de salvação
Certamente não é sem motivo que o Senhor testifica que toda a segurança da nossa salvação se funda na invocação do seu nome [Joel 2], visto que por ele obtemos tanto a presença da sua providência, pela qual ele se mostra vigilante no cuidado que nos dispensa, como do seu poder, pelo qual ele nos alivia e nos consola em nossa franqueza e imperfeição, e também da sua bondade, pela qual ele nos recebe em sua graça, apesar de estarmos carregados de pecados. E, para falar resumidamente, como pela oração o chamamos para que se manifeste inteiramente presente conosco, daí decorre um singular repouso pra a nossa consciência. Porque, após expormos ao Senhor a necessidade que nos cerca, temos onde descansar satisfatoriamente, sendo que entendemos que nada da nossa miséria está oculta para aquele cuja boa vontade para conosco é certa, e cujo poder para nos ajudar é indubitável.
4. Objeção: não é desnecessário ou inútil orar?
Todavia, alguém poderá objetar, dizendo: ele não nos conhece sem necessidade de informação, e não sabe em que aspecto estamos em aperto, e quais recursos nos são úteis? Disso decorre que pareceria coisa supérflua pedi-los em oração, visto que estamos acostumados a solicitar coisas inúteis e ociosas. Mas os que argumentam desse modo não vêem a que fim o Senhor instituiu a oração para os seus. Porque não a estabeleceu por sua causa, mas em atenção a nós. Porque, embora ele esteja sempre em vigilância e faça constantemente a ronda para nos preservar, mesmo quando somos tão tolos e obtusos que não percebemos os males que nos rodeiam, e embora, por vezes, ele nos dê socorro antes de ser invocado, todavia nos é necessário suplicá-lo constantemente.
5. Motivos para orar
Primeiro, a fim de que o nosso coração seja inflamado de um veemente e ardente desejo de buscar, amar e honrar sempre a Deus, o que nos fará habituar-nos a ter nele o nosso refúgio em todas as necessidades, como o único porto de salvação. Depois, a fim de que o nosso coração seja tocado de algum desejo, que nem sempre lhe ousamos confessar de imediato, como quando expomos diante dos seus olhos todo o nosso afeto e, por assim dizer, desenrolamos e abrimos todo o nosso coração perante ele. E ainda, a fim de que sejamos habilitados a receber suas bênçãos com verdadeiro reconhecimento e ação de graça, visto que pela oração somos advertidos de que elas nos vêm da sua mão [Sl 45 (notar os versículos 2,6 e 7)]. Além desses motivos, este: a fim de que, tendo obtido o que pedimos, tenhamos em consideração o fato de que ele nos atendeu e, por isso, sejamos incitados a meditar mais ardorosamente em sua benignidade. E também tenhamos mais prazer em gozar os benefícios que ele nos faz, tendo em mente que os obtivemos por meio das nossas orações. Finalmente, a fim de que a sua providência seja confirmada e aprovada em nosso coração, na medida da nossa pequena capacidade, sendo que nós vemos que ele não somente promete jamais abandonar-nos, mas também nos dá acesso para buscá-lo e lhe fazer súplicas quando há necessidade.
Por todas essas razões, o Pai, cheio de clemência, jamais dorme nem cessa o seu cuidado. Todavia, às vezes, parece dormir e cessar, a fim de que por isso sejamos incitados a dirigir-lhes orações e súplicas; recurso divino válido para corrigir a nossa preguiça e o nosso esquecimento. Portanto, é grande perversidade querer alguém fazer com que deixemos de orar, alegando que é coisa supérflua solicitar, por nossas preces, a providência de Deus, a qual, sem ser solicitada, vela pela preservação de todas as coisas. O que ao contrário se vê é que o Senhor não testifica em vão que estará perto de todos os que encovarem seu nome em verdade [Sl 145.18].
6. Negar o valor da oração é loucura
É uma grande loucura alegar que não há nenhuma razão para pedir as coisas que o Senhor voluntariamente está pronto a cumular sobre nós. Por quê? Porque ele quer que nos concederemos que as bênçãos que recebemos, provenientes da sua liberalidade gratuita, são concedidas às nossas orações.
Aqui são apenas as Três primeiras páginas do capítulo IX da Institutas – Edição especial. Calvino continua a desenvolver este assunto de forma maravilhosa, e nas páginas seguintes dita algumas regras e explica ponto por ponto a oração do “Pai nossos”.. Compre este maravilhoso livro em http://www.cep.org.br de seqüência a leitura.
Autor: João Calvino
Fonte: As Institutas da Religião Cristã, edição especial, ed. Cultura Cristã, Vol 3, pg 91-94.
Genuína base da humildade cristã
Capítulo VIII - A Predestinação e a Providência de Deus - Institutas (E) Vol 3, pg 37-46.
A Predestinação e a Providência de Deus
Consideramos agora o seguinte: tendo-se em vista o fato de que a Aliança da Vida não é pregada igualmente por todos, vê-se nessa diversidade um admirável mistério do juízo de Deus. Não há dúvida nenhuma de que essa variedade atende ao seu beneplácito, agrada ao se querer. Pois bem, como é evidente que isto é feito pela vontade de Deus – que a salvação é oferecida a uns e os outros são deixados de lado – daí decorrem grandes e altas questões, as quais só se resolvem ensinando aos crentes o que eles podem compreender da eleição e da predestinação de Deus.
1. Divisa da Matéria
Esta matéria compõe-se de duas partes. Primeiramente, devemos resolver a questão sobre o motivo pelo qual uns são predestinados para a salvação e outros para a condenação. Depois é preciso demonstrar como o mundo é governado pela providência de Deus, visto que tudo o que se faz depende da sua ordenação e do seu comando.
Antes, porém, de tratar desse argumento, devo fazer um estudo preliminar sobre as duas classes de pessoas. Porque, além de o presente tema ser em si mesmo um tanto obscuro, a curiosidade dos homens o torna complexo e complicado, e mesmo perigosos. Por quê? Porque o entendimento humano não pode refrear-se e conter-se, mas sempre tende a desgarrar-se, metendo em grandes desvios e rodeios, e a subir alto demais em suas pretensões. Seu desejo é, de possível, não deixar nenhum segredo de Deus se, a sua investigação minuciosa. Pois vemos muitos caírem nessa audácia e nessa presunção. Além disso, muitos há que não são maus, mas que carecem da nossa admoestação do sentido de se dominarem e se controlares nesta área.
Em primeiro lugar, então, quando os homens quiserem fazer pesquisa sobre a predestinação, é preciso que se lembrem de entrar no santuário da sabedoria divina. Nesta questão, se a pessoa estiver cheia de si e se intrometer com excessiva autoconfiança e ousadia, jamais irá satisfazer a sua curiosidade. Entrará num labirinto da qual nunca achará saída. Porque não é certo que as coisas que Deus quis manter ocultas e das quais ele não concede pleno conhecimento sejam esquadrinhadas dessa forma pelos homens. Também não é certo sujeitar a sabedoria de Deus ao critério humano e pretender que este penetre a sua infinidade eterna. Pois ele quer que a sua altíssima sabedoria seja mais adorada que compreendida (a fim de que seja admirada pelo que é). Os mistérios da vontade de Deus que ele achou bom comunicar-nos, ele nos testificou em sua Palavra. Ora, ele achou bom comunicar-nos tudo o que viu que era do nosso interresse que nos seria proveitoso.
Se alguma vez nos ocorreu ou nos ocorrer este pensamento: que a Palavra de Deus é o único caminho que nos leva a inquirir tudo quanto nos é lícito conhecer sobre ele; e mais, que ela é a única luz que nos ilumina para contemplarmos tudo quanto nos é lícito ver – ela nos poderá manter afastados de toda atitude temerária. Porque saberemos que, saindo dos limites próprios, caminharemos fora do caminho e vagaremos na escuridão total. E assim só poderemos errar, tropeçar e nos ferir a cada passo. Tenhamos, pois, em mente que será uma loucura querer conhecer todas as coisas relacionadas com a predestinação, exceto o que nos é dado na Palavra de Deus. Estejamos igualmente apercebidos de que, se alguém quiser caminhar por entre as rochas inacessíveis, irá mergulhar nas trevas.
2. Certa Ignorância é mais douta que o saber
E não nos envergonhemos por ignorar algo deste assunto, no qual há certa ignorância mais douta que o saber. Melhor faremos em dispor-nos a abster-nos de um conhecimento cuja exibição é estulta e perigosa, e até mesmo perniciosa. Se a curiosidade da nossa mente nos solicitar que investiguemos tudo, sempre temos em mãos esta sentença para rebater essa pretensão: “Quem esquadrinhar a majestade de Deus será oprimido por sua glória”. Muito bom será que nos desenterremos dessa audácia, pois vemos que ela n~so no pode fazer outra coisa senão precipitar-nos na desgraça.
3. O outro extremo: omissão negligente
Por outro lado, há outros que, desejando remediar esse mal, esforçam-se para fazer com que a lembrança da predestinação seja enterrada; quando menos, eles nos advertem de que tomam cuidado para não inquirir nada a respeito dela, considerando-a uma coisa perigosa. Embora seja louvável a modéstia de queremos abordar os mistérios de Deus com grande sobriedade, descer tão baixo nisso não dá bom resultado para os espíritos humanos, porque estes não se deixam domar tão facilmente.
4. O equilíbrio da Escritura
Por isso, para que tenhamos aqui bom equilíbrio, devemos examinar a Palavra de Deus, na qual temos excelente regra para o entendimento firme e correto. Porquanto, a Escritura é a escola do Espírito Santo, na qual assim como nada que seja útil e salutar conhecer é omitido, assim também não há nada que nela seja ensinado que não seja válido e proveito saber.
Portanto, devemos ter o cuidado de não impedir os crentes de procurarem saber o que há na Escritura sobre a predestinação, para não parecer que desejamos fraudá-los negando-lhes o bem que Deus lhes comunicou, ou que pretendemos discutir com Espírito Santo, como se ele tivesse divulgado coisas que faria bem em suprimir.
Permitamos, pois, que o cristão abra os ouvidos e o entendimento para toda doutrina dirigida a ele por Deus. Isso com a condição de que ele sempre mantenha este equilíbrio, esta moderação: quando vir fechada a santa boca de Deus, feche também o caminho da inquirição. Eis um bom marco memorial da sobriedade: se em nossa aprendizagem ou em nosso ensino seguirmos a Deus, tenhamo-Lo sempre adiante de nós. Contrariamente, se ele para de ensinar, paremos de querer continuar a ouvir e a entender. Então, o perigo que a boa gente que citei teme não é tão importante que deva lavar-nos a deixar de prestar atenção em Deus, em tudo quanto ele diz. Reconheço que os homens maus e blasfemos depressa encontram na doutrina da predestinação coisas para acusar, torcer, remoer e zombar. Mas, se cedermos à sua petulância, eles darão fim aos artigos da nossa fé, dos quais não deixarão um só que não fique contaminado por suas blasfêmias. Um espírito rebelde se porá a campo e, tanto ousará negar que numa só essência de Deus há três Pessoas, como também que, quando Deus criou o homem, previu o que lhe aconteceria no futuro. Semelhantemente, esses maus elementos não se absterão de rir-se quando lhes for dito que não faz muito mais que cinco mil anos que o mundo foi criado. Por que vão querer que lhes expliquemos como é que Deus ficou ocioso por tão longo tempo. Para reprimir tais sacrilégios, devemos deixar de falar da divindade de Cristo e do Espírito Santo? Devemos calar-nos sobre a criação do mundo?
Antes, muito ao contrário, a verdade de Deus é tão poderosa, tanto nesta questão como em tudo mais, que não teme a maledicência dos ímpios. O que Agostinho confirma muito bem em sua pequena obra intitulada Sobre o Benefício da Perseverança (“Du bien de persévérance”). Porque vemos que os falsos apóstolos, ridicularizando e difamando a doutrina do apóstolo Paulo, nada mais puderam fazer do que se tornarem objeto de vergonha.
5. Velhas Objeções
Há alguns que consideram esta discussão perigosa, mesmo quando mantida entre os crentes. Dizem eles que a doutrina da predestinação é contraria às exortações. Abala a fé, perturba os corações e os abate. Mas essa alegação é fútil. Agostinho não dissimula o fato de que era criticado pelas razões acima citadas, pois ele pregava livre e abertamente a predestinação. Mas, com facilidade os refutou suficientemente. Quanto a nós, visto que fazem objeção com diversos absurdos contra a doutrina que apresentamos, melhor será deixar para resolver, mas adiante, uma por vez. Por ora, desejo conseguir que todos os homens, em geral, se juntem a nós neste propósito: que não procuremos as coisas que Deus quis manter ocultas, e que não negligenciemos as que ele tornou manifesta. Isso para que, por um lado, não sejamos acusados de curiosidade exagerada, ou, por outro, de ingratidão. Neste sentido, esta sentença de Agostinho é muito boa: “Podemos seguir com segurança a Escritura, a qual condescende com a nossa pequenez, como a mãe condescende com a pequenez do seu bebê, quando quer ensiná-lo a andar”.
6. Definição de termos
Os antigos explicavam diferentemente os vocábulos presciência, predestinação, eleição e providência. Nós, deixando de lado toda discussão supérflua, seguimos simplesmente a propriedade dos termos. Quando atribuímos presciência a Deus, queremos dizer que todas as coisas sempre estiveram e continuam estando sob os seus olhos, de modo que para o seu conhecimento não há nada que seja futuro ou passado. Todas as coisas lhe são presentes, e de tal modo presente que ele não as imagina como que mediante algumas espécies ou categorias, como acontece com as coisas que temos na memória e que, lembrando-as, vêm diante dos nossos olhos pela imaginação, mas as vê e as observa real e verdadeiramente, como estando diante do seu rosto. Dizemos que este pré-conhecimento abrange toda a área do universo e todas as criaturas.
Denominamos predestinação o conselho eterno de Deus pelo qual ele determinou o que deveria fazer com cada ser humano. Porque ele não criou todos em igual condição, mas ordenou uns para vida eterna e os demais para a condenação eterna. Assim, conforme a finalidade para a qual o homem foi criado, dizemos que foi predestinado para a vida ou para a morte.
O uso conseguiu impor que se chame providência à ordem que Deus segue no governo do mundo e na direção e condução de todas as coisas.
7. A doutrina da predestinação
Em primeiro lugar, trataremos da predestinação. Conforme o que a Escritura mostra claramente, dizendo que o Senhor constituiu uma vez por todas, em seu conselho eterno e imutável, aqueles que ele quis tornar para a salvação, e aqueles que ele quis deixar em abandono. Quando aos que ele chama para a salvação, dizemos: que ele os recebe por sua misericórdia gratuita, sem levar em conta a dignidade deles; que, ao contrário, o acesso à vida é vedado a todos aqueles que ele quis deixar entregues à condenação; e que isso é realizado por seu juízo oculto e incompreensível, conquanto justo e imparcial. Ensinamos, ademais, que a vocação dos eleitos é como uma demonstração e um testemunho da sua eleição. Semelhantemente dizemos que a justificação deles é outro símbolo e sinal dela, até quando eles chegarem à glória, na qual se dará o seu cumprimento e a sua consumação.
Pois bem, assim como o Senhor assinala aqueles que ele escolheu chamando-os e justificando-os, assim também, ao contrário, privando os réprobos do conhecimento da sua Palavra, ou da santidade realizada pelo seu Espírito, ele demonstra por tal sinal qual será o fim deles, e que julgamento está preparado para eles. Deixo de lado, nesta altura, muitas fantasias forjadas por números tolos, na tentativa de derrubar a predestinação. Vou restringir-me unicamente a considerar os argumentos deles que têm lugar entre pessoas dotadas de saber, ou que poderiam gerar escrúpulos entre os simples, ou, ainda, que têm alguma aparência de verdade, podendo fazer crer que Deus não é justo, se assim o considerarmos.
O que ensinamos sobre a eleição gratuita dos crentes não é dito sem dificuldade. Porque em geral se considera que o Senhor distingue entre os homens segundo prevê os méritos de cada um deles. Assim sendo, ele adota e introduz no número dos seus filhos aqueles cuja natureza ele prevê que deve ser tal que eles não são indignos da sua graça. Ao contrário, dizem os tais mestres, Deus deixa na perdição aqueles que ele sabe que devem ser inclinados à maldade oi à impiedade. Essa opinião, comumente aceita nesses termos, não pertence somente à gente comum do povo; em todos os tempos, ela tem tido a seu favor grande escritores. O que eu declaro francamente, a fim de que não se pense que isso prejudicará muito a nossa causa, se acontecer contra nós.
Porque a verdade de Deus é tão clara neste campo que não poderá ser obscurecida; e tão certa e firme que não poderá ser abalada por nenhuma autoridade dos homens. Certamente o apóstolo Paulo, ao nos ensinar que “fomos eleitos em Cristo antes da criação do mundo” [Ef 1.4], elimina toda e qualquer consideração por nossa dignidade ou merecimento. É como se disse: visto que na semente universal de Adão, o Pai celestial não encontrou nada que fosse digno da sua eleição, dirigiu o olhar para o seu Cristo, a fim de eleger, como membros do seu corpo, aqueles que ele quis admitir à vida. Fique pois definido e estabelecido este argumento entre os crentes: que Deus nos adotou em Cristo para sermos seus herdeiros, porque em nós mesmos não tínhamos capacidade para alcançar tão excelente posição. Isso o apóstolo registra igualmente bem noutro lugar, quando exorta os colossenses a darem graças a Deus por havê-los feito idôneos para participarem da herança dos santos [Cl 1.12]. Se a eleição de Deus precede a esta graça pela qual ele nos torna idôneos para obtermos a glória da vida futura, que encontrará ele em nós que o mova a eleger-nos?
O que pretendo mostrar ficará ainda mais bem expresso por esta outra sentença: Deus nos escolheu, diz ele, “antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em amor nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meios de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade” [Ef 1.4,5]. Paulo coloca o beneplácito de Deus em oposição a todos os méritos que se possa mencionar, porque, onde quer que reine o beneplácito de Deus, nenhuma obra entra em consideração. É certo que ele não trata disso nessa passagem, mas devemos entender essa comparação nos termos em que ele a explica noutro lugar, quando diz: Deus “nos salvou e nos chamou com santa vocação; não segundo as nossas obras, mas conforme a sal própria determinação e graça que nos foi dada em Cristo Jesus, antes dos tempos eternos” [2 Tm 1.9]. As palavras que na passagem de Efésios ele acrescenta (“para sermos santos e irrepreensíveis”) não nos livram totalmente de inquietação. Sim, pois, se dissermos que Deus nos escolhe porque previu que seríamos santos, estaremos invertendo a ordem seguida pelo apóstolo Paulo.
8. Sumário certo e seguro
Podemos então afirmar com segurança: visto que ele nos escolheu a fim de que fôssemos santos, logo não foi porque previu que haveríamos de ser santos. Porque as duas coisas são contraditórias entre si: que os crentes obtenham a sua santidade graças a sua eleição; e que por essa santidade eles tenham sido eleitos. As astúcias sofísticas a que os tais mestres recorrem não têm nenhum valor aqui. No presente caso, eles dizem que, embora Deus não recompense os méritos anteriores À graça da eleição, ele os recompensa pelos méritos futuros. Mas logo se vê que quando se diz que os crentes foram escolhidos para serem santos, significa que toda a santidade que eles haveriam de ter tem sua origem e seu início na escolha. E com que tipo de coerência se poderá dizer que o que é produto de eleição seja a causa desta? Além disso, o apóstolo confirma com ainda maior firmeza o que tinha dito, acrescentando que Deus nos escolheu conforme decreto da sua vontade, que ele determinou em si mesmo. Isso equivale a dizer que ele não considerou coisa alguma fora de si mesmo à qual desse atenção, quando procede a essa deliberação. Por isso Paulo acrescenta, logo a seguir, que tudo aquilo em que se resume a nossa eleição tem que ver com este objetivo: “para louvor da glória de sua graça”. Certamente a graça de Deus só merece ser exaltada em nossa eleição se for gratuita. Ora, não seria gratuita se Deus, ao escolher os seus, atribuísse algum valor às obras de cada pessoas eleita. Daí se vê que o que Cristo disse aos seus discípulos é verdade aplicável a todos os crentes. Disse ele: “Não fostes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi a vós outros” [Jo 15.16]. Com isso ele não somente exclui todos os méritos anteriores, mas também quer dizer que eles não tinham nada em si mesmos que desse motivo para serem escolhidos, pois ele se antecedeu a eles com a sua misericórdia. Nesse sentido devemos também tomara estes dizeres do apóstolo Paulo: “Quem primeiro deu a ele para que lhe venha a ser restituído?” [Rm 11.35] Porque ele quer mostrar que a bondade de Deus de tal maneira se antecipa aos homens que ela não encontra nada neles, nem quanto ao passado nem quanto ao futuro, que lhes possibilites cooperar com ela.
9. Ilustra baseada em Jacó e Esaú
Acresce que, na Epístola aos Romanos, onde Paulo começa este argumento do ponto mais alto e depois lhe dá seqüência mais ampla, ele trata, sob o exemplo de Jacó e Esaú, da condição dos eleitos e dos reprovados, e o faz desta maneira [Rm 9.11-13]: “E ainda não eram os gêmeos nascidos, nem tinham praticado o bem ou o mal) para que o propósito de Deus, quanto à eleição, prevalecesse, não por obras, mas por aquele que chama), já fora dito a ela: o mais velho será servo do mais moço. Como está escrito: Amei Jacó, porém me aborreci de Esaú”. Que é que pretende aqueles que, obscurecendo essas palavras, atribuem algum lugar às obras em nossa eleição (quer anteriores quer futuras)? Isso é inverter completamente o que o apóstolo diz, pois, segundo este, a diferença existente entre os dois irmãos não depende em nenhum aspecto das suas obras, mas da pura e simples vocação de Deus. Sim, porquanto Deus determinou o que iria fazer antes de eles terem nascido. A sutileza utilizada pelos sofistas não escaparia ao conhecimento de Paulo, se tivesse algum fundamento. Mas, como ele sabia que Deus não poderia prever nada de bom no homem, senão o que deliberou dar-lhe pela graça da sua eleição, deixou de lado essa opinião perversa, que consiste em preferir as boas obras às sua causa e origem. Das palavras do apóstolo, deduzimos que a salvação dos que crêem funda-se no beneplácito da eleição de Deus, e que esta graça não é adquirida por boas obras, mas lhes vem da sua bondade gratuita. Elas nos propiciam também como que um espelho ou um quadro que representa esta verdade. Esaú e Jacó são irmãos, gerados dos mesmos pais, de uma mesma gestação, estando juntos no ventre de sua mãe antes de nascerem. Todas as coisas são semelhantes num e no outro; todavia, o juízo de Deus distingue entre eles, pois escolhe um e rejeitou o outro. Só restava a questão da primogenitura, que fazia que um fosse preferido ao outro. Mas mesmo isso foi deixado para trás; foi dado ao que nasceu por último o que foi gerado ao que nasceu primeiro.
10. Outros exemplos
Em muitos outros casos se vê que Deus, com deliberado propósito, desprezou a primogenitura a fim de extirpar da carne todo elemento de glória. Rejeitando Ismael, ligou o seu coração a Isaque; rebaixando Manasses, preferiu Efraim [Gn 17 e 48 (ver Gn21.12)]. Se alguém replicar que não devemos julgar questões relacionadas com a vida eterna recorrendo a coisas inferiores e levianas, e que é uma zombaria inferior que aquele que exaltado pela honra da primogenitura é adotado como participante da herança celestial (havendo alguns que não poupam nem mesmo o apóstolo Paulo, dizendo que abusou dos testemunhos da Escritura, aplicando-os a este assunto), respondo que o apóstolo não falou disso inconsideradamente, e não quis torcer o sentido dos testemunhos da Escrituras; mas ele enxergava o que esse tipo de gente incapaz de considerar. É que Deus quis, por meio de um sinal corporal, representar a eleição espiritual de Jacó, a qual, noutro aspecto, estava oculta em seu conselho secreto. Porque, se não aplicássemos à vida futura a primogenitura que foi dada a Jaci, a Bênção que ele recebeu seria totalmente ridícula, porque não teria outra coisa senão total miséria e calamidade.
Vendo, pois, o apóstolo Paulo que Deus, por meio dessa bênção exterior testificou sua bênção eterna, que ele preparou em seu reino celestial para o seu servo, não teve dúvida nenhuma em tomar o argumento de que Jacó recebeu primogenitura para provar que ele foi escolhido por Deus. Portanto, Jacó foi eleito, Esaú tendo sido repudiando, e assim é feita distinção entre eles pela eleição de Deus – apesar de não haver diferença em seus méritos.
11. Qual o motivo disso?
Se alguém pedir a razão disso, Paulo lhe dará; é o que Deus disse a Moisés: “Terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia e me compadecerei de quem em me compadecer” [Ex 33.19 (Rm 9.14-16)]. E que será que isso quer dizer? Claro está que o Senhor afirma explicitamente que não encontra em nós nenhuma razão pela qual deva fazer-nos bem, mas que se baseia totalmente em sua misericórdia, pelo que a salvação dos seus é sua obra, de mais ninguém.
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Autor: João Calvino
Fonte: As Institutas da Religião Cristã, edição especial, ed. Cultura Cristã, Vol 3, pg 37-46.