segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Capítulo XIV - Sobre a Liberdade Cristã - Institutas (E) Vol 4, pg 89,90

Capítulo XIV - Vol 4, pg 89,90

Sobre a Liberdade Cristã

1. Introdução

[1536] Devemos tratar agora da liberdade cristã, assunto do qual deve esquecer-se quem se proponha a abranger num breve compêndio uma súmula de toda a doutrina evangélica. Esse estudo é muito necessário, e, sem o conhecimento dele, dificilmente as consciências ousarão empreender alguma coisa, senão em dúvida, muitas vezes hesitando e parando; sempre temerosos e vacilantes.

Embora tenhamos vez por outra tocado de leve neste tema, todavia o adiamos e reservamos sua discussão completa até o presente espaço. Tivemos este cuidado porque, se for feita alguma menção da liberdade cristã antes da hora, de imediato uns dão rédeas solta às suas concupiscências e outros promovem grandes tumultos, se ao mesmo tempo não se puser ordem para conter os espíritos levianos, que corrompem as coisas mais excelentes que a eles se apresentem. Porquanto uns, a título de seguirem esta liberdade, rejeitam toda obediência a Deus e dão livre curso à sua carne. Já outros se opõem e não querem ouvir falar desta liberdade, pois acham que ela só se presta para derrubar toda ordem, toda modéstia e toda discrição.

Que fazer aqui, em tal aperto? Não seria melhor deixar de lado a discussão sobre a liberdade cristã para enviar evitar tais perigos? Mas, como foi dito, sem este conhecimento, nem Jesus Cristo nem a verdade do evangelho poderão ser bem conhecidos. Muito ao contrário, devemos pôr toda a diligência no sentido de que esta doutrina tão necessária não fique omissa e sepultada e que, ao mesmo tempo, se ponha freio às objeções absurdas movidas contra ela.

2. Três partes componentes da liberdade cristã

Segundo o meu juízo, a liberdade cristã compõe-se de três partes. A primeira é que, em geral, a consciência dos crentes, quando a questão é buscar a certeza da sua justificação, se exalta e se eleva acima da Lei, e esquece toda a justiça que é própria da Lei. Porque, como acima foi demonstrado, visto que a lei não vos deixa nenhum justo, ficamos neste impasse: ou só nos resta perder toda a esperança de sermos justificados, ou é preciso que sejamos libertados dela. E que fiquemos de tal modo livres dela que não precisamos nem pensar em nossas obras. Porque, aquele que pensar que deve contribuir um pouco que seja com suas obras para obter justiça, não conseguirá determinar nem o fim nem a medida delas, mas se fará devedor de toda a Lei. Por isso, quando se trata da nossa justificação devemos desfazer-nos de toda e qualquer consideração da Lei e das nossas obras, para abraçarmos unicamente a misericórdia de Deus, e devemos afastar de nós mesmos o olhar para fixá-lo somente em Jesus Cristo. Porque neste ponto não se trata da saber se somos justo, mas, sim, de saber como é que, sendo injustos e indignos, podemos ser considerados justo. Se a nossa consciência quer ter alguma certeza disso, não deve dar nenhum lugar à Lei.

Note-se, porém, que isso não deve levar a inferir que a Lei é supérflua para os crentes, porquanto ela não deixa de ensiná-los, exortá-los e estimulá-los à prática do bem, conquanto seja um fato de que no juízo de deus ela não tem lugar em nossa consciência. Sendo, pois, que estas duas coisas são bem diferentes, assim também nos é necessário discernir-las cautelosa e diligentemente.

Toda a vida dos cristãos deve ser uma constante meditação e exercício ou prática da piedade, visto que somos chamados para a santificação (Ef 1.4; 1 Ts 4.3,7). Nisto consiste o ofício da Lei: em advertir os cristãos do seu dever e incitá-los a amar a santidade e a inocência. Mas quando as consciências se inquietam sobre como poderão torna Deus propício, sobre o que terão para responder e em que tipo de confiança elas poderão manter-se quando chamadas e denunciadas no tribunal de Deus, não devem quere prestar contas baseadas na lei, nem devem preocupar-se em saber o que ela exige, mas devem ter consigo unicamente a Jesus Cristo como sua justiça, seguros de que ele sobrepuja toda a perfeição da Lei.

Aqui são apenas as duas primeiras páginas do capítulo XIII da Institutas – Edição especial. Calvino continua a desenvolver este assunto Maravilhosamente nas páginas seguintes. Compre este maravilhoso livro em http://www.cep.org.br de seqüência a leitura.

Autor: João Calvino
Fonte: As Institutas da Religião Cristã, edição especial, ed. Cultura Cristã, Vol 4, pg 89,90.

2 comentários:

Francisco disse...

Senhor autor deste blog,

Como é de bom alvitre sempre ouvir os dois lados de uma história.

Gostaria que os responsáveis por este blog me explicassem se este é o mesmo Calvino que interferiu na vida deste médico conforme a história
abaixo, que foi martirizado na fogueira, ou é outro Calvino?


CAMINHOS DA MEDICINA

O TRÁGICO DESTINO DE MIGUEL SERVET
O nome de Miguel Servet, ou Michael Servetus em latim, acha-se definitivamente incorporado à história da medicina. Servet foi um precursor de Harvey na descoberta da circulação sangüínea. Foi quem primeiro descreveu a circulação pulmonar com exatidão.
Nascido em Aragão, na Espanha, seu verdadeiro nome de família era Michael Villanueva. O nome de Serveto, por ele mesmo adotado, transformou-se em Servet, em francês, e Servetus, em latim.

Espírito irrequieto, combativo, devotado a questões transcendentais de natureza religiosa e filosófica, viveu de 1511 a 1553, em meio às disputas religiosas resultantes da Reforma liderada por Lutero e Calvino.
Estudou leis em Toulouse, teologia e hebraico em Louvain, e medicina em Paris e Montpelier, tendo-se destacado por seu interesse pela anatomia.
Durante toda a sua vida, Servet escreveu sobre questões religiosas e dedicou-se à exegese da Bíblia. Pregava a volta a um cristianismo "puro", tal como fora ensinado por Jesus. Um dos dogmas da Igreja por ele contestado, e que o fez cair em desgraça, foi o da Santíssima Trindade. As suas idéias e os seus escritos desagradaram tanto aos católicos como aos protestantes.
É interessante conhecer a razão de seu interesse pela circulação pulmonar. Está escrito na Bíblia que "a alma da carne é o sangue"(Lev. 17.11) e que "o sangue é a vida (Deut. 12.23). No livro dos Salmos (104. 29), por sua vez, a importância da respiração para a manutenção da vida é ressaltada nas seguintes palavras: "se lhes tira a respiração, morrem, e voltam para o seu pó".
Essas passagens bíblicas levaram Servet a estudar a circulação pulmonar, onde o sangue e o ar se misturam, pois no seu entender, o conhecimento da circulação pulmonar conduziria a uma melhor compreensão da natureza da alma.
Sua descrição da circulação pulmonar está assim redigida:
"A força vital provém da mistura, nos pulmões, do ar aspirado e do sangue que flui do ventrículo direito ao esquerdo. Todavia, o fluxo do sangue não se dá, como geralmente se crê, através do septo interventricular. O sangue flui por um longo conduto através dos pulmões, onde a sua cor se torna mais clara, passando da veia que se parece a uma artéria, a uma artéria parecida com uma veia".
Admite-se que Servet tenha realizado observações próprias em animais para chegar a essa conclusão, embora não as tenha mencionado.
A sua descoberta da circulação pulmonar foi divulgada em um livro sobre religião, intitulado Christianismi restitutio, que foi considerado hereje, confiscado e incinerado. Salvaram-se apenas três exemplares, um dos quais se encontra em Paris, outro em Viena e outro em Edimburgo. Uma segunda edição, publicada em Londres em 1723, foi novamente apreendida e incinerada.
Acusado de heresia, Servet foi preso e julgado em Lyon, na França. Conseguiu evadir-se da prisão e quando se dirigia para a Itália, através da Suíça, foi novamente preso em Genebra, julgado e condenado a morrer na fogueira, por decisão de um tribunal eclesiástico SOB DIREÇÃO DO PRÓPRIO CALVINO. A sentença foi cumprida em Champel, nas proximidades de Genebra, no dia 27 de outubro de 1553.
Puseram-lhe na cabeça uma coroa de juncos impregnada de enxofre e foi queimado vivo em fogo lento com requintes de sadismo e crueldade.
A sua descoberta foi por muito tempo ignorada pela medicina oficial.
Um monumento em sua memória foi erguido em 1903, em Champel, assinalando o local de sua morte.
Joffre M. de Rezende
Membro da Sociedade Brasileira e da Sociedade Internacional de História da Medicina
Atualizado em 29/10/2002.
e-mail: jmrezende@cultura.com.br
http://ususarios.cultura.com.br


desde já agradecido,
Pode me responder com outro comentário no Blog ou
PELO e-MAIL chicobetu@gmail.com
Alberto

Nilson Mascolli Filho disse...

Saudações Francisco.

Em primeiro lugar, deve-se questionar a credibilidade do articulista antes até mesmo de avaliar o artigo.
1. o articulista é capacitado o suficiente para escrever algum material na área de história ou é um mero curioso?
2. o articulista é tendencioso [parece-me que sim] ou é imparcial com os fatos?
3. o articulista tem acesso a fontes seguras, porque história se faz com documentos. Não vejo de onde o autor retirou tão bizarras informações para fazer tão incisivas afirmações!

É fato que Calvino consentiu na execução do hereje Miguel de Serveto, todavia, ele já estava sentenciado a morte desde o seu país natal, i.é., Espanha, e em todos os demais países católicos, declarado persona non grata pela terrível Inquisição católica. Sem contar que em Genebra, Serveto levantou um motim contra o Consistório [não especificamente contra Calvino], ou seja, o conselho ou, parlamento da cidade, e por isso, somado às suas heresias foi condenado à morte. Calvino ainda intercedeu em seu favor, mas em conselho, o voto de um, não decide!

Mas, sempre haverá os que sem provas, ou qualquer documentação confiável atribua males hediondos ao reformador genebrino, colocando o crimonoso Serveto como vítima do sistema. Numa época em que estamos acostumados a ouvir no tribunal estupradores e assassinos defenderem-se como vítimas, afirmando que a estuprada é quem o provocou, e que ele agiu em legítima defesa, não é de se estranhar quem também coloquem o foragido Serveto como coitado na história.

Autor do Blog.